*Sêmia Mauad/ Opinião MT
A trágica morte de uma adolescente de 12 anos, ocorrida no último domingo, dia 7 de junho, no bairro Serra Dourada, em Várzea Grande, ganhou contornos ainda mais dolorosos com a revelação dos bastidores familiares. O crime, cometido pelo próprio pai da vítima, Claudinei da Silva, de 42 anos, aconteceu justamente na primeira vez em que a criança recebeu autorização para dormir na residência paterna após anos de afastamento.
De acordo com a advogada criminalista Dayane Rodrigues, que atua na defesa da mãe da vítima, o contato entre pai e filha havia sido retomado de forma recente e gradual. Claudinei passou anos sem qualquer convivência frequente ou visitas livres. O histórico do agressor justificava o receio da família materna. Em 2018, ele havia sido preso por tentativa de homicídio contra a ex-esposa, mãe da menina.
A aproximação começou a ser permitida após Claudinei e familiares dele procurarem a mãe da menor para pedir uma oportunidade de convivência. Como a criança manifestava o desejo de conviver com o pai, e não guardava memórias da violência doméstica ocorrida quando era mais nova, o pedido foi aceito. No entanto, as visitas eram estritamente limitadas e monitoradas pela família materna.
A menina nunca havia dormido na casa do pai. O final de semana do crime havia sido planejado. Eles foram a um clube comemorar o aniversário do avô paterno, que a menina conheceria naquele dia.
Após o encerramento da festa de família, onde consumiu bebidas alcoólicas, Claudinei retornou com a filha para a residência no bairro Serra Dourada. Conforme o depoimento prestado à Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), o homem decidiu vistoriar o aparelho celular da filha.
Ao acessar a conta do Instagram da menor, ele encontrou mensagens dela com outro menino. Tomado por uma fúria, o homem alegou que tentou “corrigir” a filha, iniciando uma discussão que rapidamente evoluiu para agressões físicas.
O delegado titular da DHPP, Nilson Farias, detalhou a frieza do assassino confesso durante o interrogatório.
“Ele fala que, em certo momento, esganou ela mesmo, enforcou. Nisso rompe os vasos sanguíneos do nariz. Ele falou que começou a espirrar muito sangue e, na sequência, ele evade da residência, começa a fugir das pessoas”, revelou o delegado.
A justificativa fútil apresentada por Claudinei e a extrema violência empregada contra a própria filha fizeram a Polícia Civil adotar cautela técnica. O delegado Nilson Farias solicitou oficialmente a realização de um exame de conjunção carnal no corpo da adolescente para apurar se ela vinha sufrendo violência sexual de forma oculta.
“Pedi o exame exatamente porque entendi que é uma conduta fora do normal para um pai. Se você sabe que sua filha está se relacionando com alguém, você vai aconselhar, não matar. Embora conhecidos digam que esse não era o perfil dele, o trabalho da Polícia Civil é trabalhar com dados técnicos e esclarecer a verdade”, pontuou Farias.
A tese de dissimulação é compartilhada pela delegada Jéssica Cristina de Assis, da Delegacia Especializada de Defesa da Mulher e Vulneráveis 24 Horas de Várzea Grande.
“Quem pratica esse tipo de crime sabe fingir muito bem perante a sociedade. O agressor usa uma máscara social, mas, dentro de casa, a realidade contra os vulneráveis é outra”, ponderou. Nos próximos dias, a perícia fará a extração completa de dados do celular da vítima.
DESESPERO DA MÃE E PRISÃO
O crime aconteceu no fim da tarde de domingo. Por volta das 18h, a mãe da menina foi até a residência de Claudinei para buscá-la. Ao chamar no portão, o suspeito saiu e mentiu, afirmando que a filha estava brincando na casa de uma vizinha. Imediatamente após dar a desculpa, ele correu e fugiu a pé.
Desconfiada e em pânico, a mãe entrou na casa e encontrou a filha caída no chão de um dos quartos, desacordada. Com a ajuda de uma amiga, ela transportou a criança às pressas para a UPA do bairro Verdão, em Cuiabá, mas a equipe médica constatou que a menor já deu entrada morta.
Enquanto as equipes da DHPP e da Politec isolavam a cena do crime, Claudinei da Silva se entregou na Delegacia da Mulher em Várzea Grande. Ele foi autuado em flagrante por feminicídio e a Polícia Civil já representou junto ao Poder Judiciário pela conversão da prisão em preventiva.

