A nova política comercial adotada pela China começa a provocar mudanças importantes no mercado brasileiro de carne bovina. Com a criação de um sistema de cotas para importações, frigoríficos reduziram o ritmo de compras, produtores acompanham a pressão sobre a arroba do boi gordo e especialistas avaliam os possíveis reflexos para exportações, indústria e consumidores nos próximos meses.
China limita importações para fortalecer produção interna
Desde 1º de janeiro deste ano, passou a valer a medida de salvaguarda criada pelo governo chinês para restringir a entrada de carne importada. A iniciativa foi anunciada no fim de 2025 e tem como principal objetivo fortalecer os pecuaristas e a indústria doméstica diante do crescimento das compras internacionais.
O modelo funciona por meio de uma cota anual de importação. Enquanto os embarques permanecerem dentro do limite estabelecido, continua sendo aplicada a tarifa regular de importação. No entanto, quando esse volume é ultrapassado, passa a incidir uma cobrança adicional que reduz significativamente a competitividade dos fornecedores estrangeiros.
A adoção desse mecanismo acompanha uma tendência observada em diversos mercados internacionais, onde governos vêm reforçando instrumentos para proteger setores considerados estratégicos da economia nacional.
Como a medida afeta a carne bovina brasileira
O Brasil recebeu a maior cota entre todos os países exportadores devido ao seu papel de principal fornecedor do mercado chinês. O limite definido foi de 1,106 milhão de toneladas, mantendo a tarifa de importação em 12% dentro desse volume.
Entretanto, toda a produção exportada acima desse teto passa a ser tributada com uma sobretaxa de 55%, elevando a carga total para aproximadamente 67%.
Na prática, essa mudança representa um desafio importante para o setor. Em 2025, o Brasil exportou cerca de 1,68 milhão de toneladas ao mercado chinês, volume aproximadamente 35% superior ao permitido pela nova regra.
Segundo Maurício Palma Nogueira, diretor da Athenagro, a decisão chinesa busca fortalecer sua cadeia pecuária e reduzir a dependência de fornecedores externos. Ele ressalta que, embora o Brasil tenha recebido a maior cota, o excedente perde competitividade devido à elevada tributação.
Exportações devem desacelerar no segundo semestre
Especialistas avaliam que o impacto mais imediato será uma redução no ritmo das exportações brasileiras ao longo da segunda metade do ano.
O pesquisador do FGV Agro, Felippe Serigatti, explica que contratos assinados anteriormente continuarão sendo cumpridos, mas novos embarques devem diminuir após o preenchimento da cota. Apenas cortes de maior valor agregado poderão permanecer economicamente viáveis mesmo diante da tributação adicional.
A expectativa é que as empresas concentrem seus envios para a China durante o primeiro semestre ou até o momento em que a cota seja completamente utilizada. Depois disso, a tendência é de desaceleração das operações.
Apesar das novas restrições, analistas destacam que a China continuará necessitando importar grandes volumes de carne bovina para atender ao crescimento do consumo interno, já que sua produção doméstica ainda não é suficiente.
Segurança alimentar é prioridade para os chineses
Especialistas apontam que a decisão faz parte de uma estratégia mais ampla do governo chinês voltada à segurança alimentar.
Mesmo após recuperar boa parte do rebanho suíno afetado pela peste suína africana nos últimos anos, a produção de carne bovina permanece abaixo da demanda do país asiático.
Esse cenário mantém a necessidade de importações, mas com mecanismos que reduzam a dependência externa e incentivem o desenvolvimento da produção local.
Frigoríficos ajustam operações diante do novo cenário
Levantamento da StoneX mostra que aproximadamente 98,5% da cota destinada ao Brasil já havia sido comprometida até o fim de junho. Como as cargas levam cerca de um mês para chegar ao destino, a expectativa do mercado é de que o limite seja totalmente alcançado durante agosto.
Essa perspectiva levou diversas empresas a reduzir o ritmo de compra de animais para abate e diminuir a produção destinada ao mercado chinês.
Segundo Felipe Fabbri, da Scot Consultoria, existe uma diferença entre os dados oficiais divulgados pela China e a leitura feita pelo mercado. Enquanto os números chineses consideram apenas os produtos já desembarcados no país, o setor acompanha também os embarques realizados, indicando que a capacidade disponível está praticamente esgotada.
Como consequência, algumas indústrias anunciaram férias coletivas, redução de turnos e ajustes temporários na produção.
Empresas podem redirecionar exportações
Grupos com operações internacionais estudam ampliar o uso de unidades instaladas em países como Argentina, Paraguai, Uruguai e Colômbia.
Segundo analistas do setor, essas plantas ainda possuem espaço dentro das respectivas cotas concedidas pela China, permitindo redistribuir parte da demanda atualmente atendida pelo Brasil.
Ao mesmo tempo, frigoríficos brasileiros também buscam ampliar vendas para outros mercados internacionais, incluindo os Estados Unidos, embora nenhum deles tenha capacidade para substituir completamente o volume adquirido pelos chineses.
Mercado interno deve sentir impactos moderados
No Brasil, os especialistas acreditam que os efeitos serão graduais.
Embora a redução das exportações possa exercer pressão sobre a arroba do boi gordo no curto prazo, fatores ligados ao ciclo pecuário ajudam a limitar movimentos mais intensos de queda.
A retenção de matrizes pelos produtores reduz a disponibilidade de animais para abate, contribuindo para manter o equilíbrio entre oferta e demanda.
Além disso, o mercado futuro continua indicando expectativa de valorização da arroba ao longo dos próximos meses, o que também dificulta uma redução consistente nos preços praticados pela indústria.
Dados da Safras & Mercado mostram que, em junho, a China pagou em média US$ 6.751,13 por tonelada da carne bovina brasileira. Com a incidência da sobretaxa de 55%, esse valor passaria para aproximadamente US$ 10.464,26 por tonelada, tornando muitos embarques economicamente inviáveis.
Enquanto isso, a Scot Consultoria observa que a arroba perdeu parte da força desde a segunda quinzena de junho, com expectativa de permanência entre R$ 320 e R$ 330 em São Paulo durante julho e agosto.
Consumidor deve perceber apenas mudanças pontuais
Apesar de parte da produção que seria destinada ao mercado externo permanecer no Brasil, especialistas avaliam que isso dificilmente provocará uma redução expressiva nos preços pagos pelos consumidores. O consumo interno continua aquecido e o volume disponível não configura um excesso capaz de alterar significativamente os preços no varejo.
Segundo analistas do setor, o cenário mais provável envolve promoções temporárias em determinados cortes, sem uma queda estrutural dos preços da carne bovina.
Também existe a preocupação de que uma redução prolongada na remuneração dos pecuaristas desestimule investimentos na atividade. Caso isso aconteça, a oferta de animais poderá diminuir nos próximos anos, pressionando novamente os preços ao consumidor.

