Um paciente de 66 anos com doença renal em estágio terminal conseguiu permanecer 271 dias com um rim de porco transplantado antes de receber um órgão humano. O procedimento foi realizado no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, nos Estados Unidos, e é considerado um marco nas pesquisas sobre xenotransplantes, técnica que permite o uso de órgãos de animais em seres humanos.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Centro de Ciências de Transplantes e da Divisão de Nefrologia da instituição. A equipe teve participação do médico brasileiro Leonardo Riella, diretor médico da área de transplantes renais do hospital, e do cirurgião Tatsuo Kawai.
Rim de porco funcionou por 271 dias
O principal resultado observado pelos pesquisadores foi o longo período em que o rim de porco permaneceu funcionando no organismo do paciente. Durante esse intervalo, não foi necessário recorrer à diálise, procedimento utilizado para substituir parte das funções dos rins quando esses órgãos deixam de filtrar adequadamente o sangue.
Segundo os pesquisadores, o órgão suíno apresentou funcionamento imediato após a cirurgia. O acompanhamento também permitiu avaliar de forma detalhada a reação do sistema imunológico do paciente ao órgão transplantado.
Primeiro caso havia durado 52 dias
A experiência atual representa uma evolução em relação a um procedimento realizado anteriormente, também envolvendo um rim suíno. Em 2024, outro paciente recebeu o órgão e permaneceu 52 dias após o xenotransplante. Posteriormente, ele morreu em decorrência de problemas cardíacos que não estavam relacionados diretamente ao transplante.
Até então, os registros disponíveis não apontavam para uma sobrevivência tão prolongada com um órgão de porco transplantado em uma pessoa.
Para Leonardo Riella, a utilização de órgãos de animais pode inicialmente desempenhar o papel de uma alternativa temporária para pessoas que aguardam um rim humano.
Quadro clínico do paciente
O paciente, identificado como Tim Andrews, apresentava insuficiência renal em estágio terminal e necessitava de um transplante. A dificuldade encontrada era a ausência de um órgão humano compatível disponível dentro do período necessário para o tratamento.
O transplante com rim de porco foi realizado em janeiro de 2025, quando Andrews tinha 66 anos. A operação foi autorizada por meio de um pedido de Acesso Expandido relacionado a um Novo Medicamento Experimental, procedimento submetido à avaliação da Food and Drug Administration (FDA), órgão responsável pela regulamentação de medicamentos e determinados tratamentos experimentais nos Estados Unidos.
A equipe médica acompanhou continuamente a atividade do órgão e a resposta imunológica do paciente. Entre os parâmetros observados estavam a função renal e a produção de anticorpos capazes de indicar uma reação do organismo ao enxerto.
Reação imunológica foi controlada
Durante o acompanhamento inicial, os médicos identificaram um episódio de rejeição associado à atuação de células T. A resposta foi tratada e controlada pela equipe, sem que o episódio provocasse a perda imediata do órgão.
Outro ponto destacado pelos pesquisadores foi a ausência de transmissão de patógenos de origem suína para o paciente durante o período em que o rim permaneceu implantado.
Depois de aproximadamente seis meses, porém, o quadro imunológico sofreu alterações. O paciente apresentou redução da resposta imunológica associada a uma infecção, além de alterações na microcirculação do órgão e um processo inflamatório.
A combinação desses fatores acabou comprometendo progressivamente o funcionamento do rim de porco, levando à falência do órgão.
Transplante humano foi realizado posteriormente
Com a perda da função do órgão suíno, surgiu a necessidade de encontrar uma nova alternativa para o paciente. A disponibilidade de um rim humano de um doador falecido permitiu que Andrews fosse submetido a outro transplante.
O órgão humano foi recebido imediatamente após a falência do rim suíno, possibilitando a continuidade do tratamento sem a necessidade de manter o paciente por um longo período dependente da diálise.
O caso demonstra uma das possíveis aplicações do xenotransplante: funcionar como uma espécie de solução intermediária para pacientes que aguardam um órgão humano compatível.
Desafios para o xenotransplante
Apesar do resultado considerado relevante pelos pesquisadores, a utilização de órgãos de animais em seres humanos ainda envolve questões que precisam ser investigadas.
Entre as principais preocupações estão as possíveis infecções causadas por agentes presentes nos animais e as reações do sistema imunológico humano. A capacidade de manter o órgão funcionando durante períodos cada vez maiores também continua sendo um dos pontos centrais dos estudos.
A experiência com o paciente de Massachusetts fornece informações para novas pesquisas sobre a segurança e a durabilidade dos xenotransplantes. Os resultados poderão contribuir para avaliar se, no futuro, órgãos de animais geneticamente modificados poderão ser utilizados não apenas como alternativa temporária, mas também como solução de longo prazo para pessoas que necessitam de transplantes.

