As investigações conduzidas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado colocaram o Banco Central no centro de um dos pontos mais sensíveis do caso envolvendo o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Informações apresentadas ao colegiado revelaram a existência de pagamentos milionários destinados a ex-integrantes da autoridade monetária, levantando questionamentos sobre a natureza dessas movimentações financeiras.
Banco Central no centro das apurações
Dados fiscais referentes ao período entre 2022 e 2025, encaminhados à CPI, indicam que ao menos R$ 38,7 milhões foram direcionados a pessoas que ocuparam cargos relevantes no Banco Central. As informações foram obtidas a partir de declarações de Imposto de Renda e documentos analisados pela comissão.
Entre os nomes identificados, está Belline Santana, que atuou na área de supervisão bancária da instituição. Segundo os registros, ele teria recebido cerca de R$ 4 milhões. Já Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização, aparece como destinatário de aproximadamente R$ 8 milhões, sendo o maior valor individual entre os citados.
Valores pagos a ex-integrantes
Outros ex-integrantes do Banco Central também foram mencionados nas planilhas analisadas pela CPI. João André Calvino Marcos Pereira, que teve atuação ligada à regulação do sistema financeiro, surge vinculado a repasses de cerca de R$ 3 milhões.
O ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, também aparece nos registros, com pagamentos que somam aproximadamente R$ 5,1 milhões. Outro nome citado é Pedro Malan, que presidiu a instituição na década de 1990 e atualmente atua como consultor, associado a contratos firmados com o Banco Master.
Henrique Meirelles, que também comandou o Banco Central e ocupou o cargo de ministro da Fazenda, figura entre os principais valores apontados, com cerca de R$ 18,5 milhões relacionados às movimentações investigadas.
Relatório da CPI e movimentações financeiras
De acordo com o relatório final apresentado pelo senador Alessandro Vieira, os pagamentos identificados faziam parte de um dos eixos mais relevantes da investigação. O objetivo era mapear possíveis conexões financeiras entre operadores do sistema bancário e figuras com histórico em cargos estratégicos de regulação.
O material analisado incluía planilhas detalhadas, registros de transferências e estudos técnicos que apontavam movimentações consideradas fora do padrão habitual. A avaliação de integrantes da comissão era de que os dados poderiam indicar a existência de uma estrutura sofisticada, com alcance em diferentes níveis do sistema financeiro.
Rejeição do relatório final
Apesar do avanço das apurações, o relatório final da CPI não foi aprovado. A votação terminou com seis votos contrários e quatro favoráveis, após mudanças na composição do colegiado que ampliaram a presença de parlamentares alinhados ao governo.
O presidente da comissão, senador Fabiano Contarato, manifestou-se contra o texto, embora não tenha participado da votação. Com a rejeição, as conclusões do relatório perderam validade formal e não puderam ser encaminhadas oficialmente a outros órgãos.
Impactos do encerramento sem conclusão
O término da CPI sem a aprovação do relatório interrompeu o encaminhamento institucional de diversos achados, incluindo as análises sobre os pagamentos a ex-dirigentes do Banco Central. Situação semelhante já havia ocorrido em outras comissões parlamentares que também encerraram atividades sem validação de seus relatórios finais.
Nos bastidores, parlamentares indicaram que a investigação buscava demonstrar que as conexões do Banco Master poderiam ultrapassar agentes de menor influência, alcançando níveis mais altos dentro do sistema financeiro nacional.
A presença de ex-integrantes do Banco Central entre os beneficiários dos repasses reforçou, segundo integrantes da CPI, a necessidade de aprofundamento das apurações. No entanto, sem a aprovação do relatório, as conclusões permanecem sem validação oficial.

