*Sêmia Mauad/ Opinião MT
O Tribunal do Júri do caso do assassinato do advogado Roberto Zampieri, realizado na última terça-feira, dia 28 de julho, foi marcado por depoimentos técnicos contundentes de autoridades policiais. Sentam no banco dos réus Antônio Gomes da Silva, considerado executor confesso, Hedilerson Fialho Martins Barbosa, intermediário, e o coronel reformado do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, apontado como financiador.
Durante a sessão no Fórum da Capital, conduzida pelo juiz José Mauro Nagib Jorge, os delegados Marco Bontempo, da Polícia Federal, e Nilson Farias, da Polícia Civil, revelaram detalhes cruciais das investigações, expondo conexões financeiras, registros de monitoramento e o envolvimento de figuras centrais na trama criminosa.
DEPOIMENTO DA POLÍCIA FEDERAL
Responsável por destrinchar o conteúdo extraído do celular do advogado Roberto Zampieri, o delegado da Polícia Federal Marco Bontempo apresentou evidências sobre as pressões enfrentadas pela vítima e o fluxo financeiro ligado ao crime.
Bontempo revelou que mensagens encontradas no aparelho do advogado apontam que o desembargador Sebastião de Moraes Filho relatou ter sofrido ameaças do fazendeiro Aníbal Manoel Laurindo, apontado como um dos mandantes do assassinato. Pouco depois do episódio, o magistrado declarou suspeição para atuar no processo, decisão que chegou a ser contestada por Zampieri.
“O desembargador relata que teria havido um contato com o Aníbal e que o Aníbal estava ameaçando ele em relação a um processo, afirmando que tinha provas ou imagens que poderiam comprometer o desembargador Sebastião. Dias depois, o desembargador Sebastião dá uma decisão se declarando suspeito, e o Zampieri até se manifesta contrário a essa alegação de suspeição do desembargador”, pontuou o delegado federal.
A PF também mapeou a proximidade entre o coronel reformado Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas e Aníbal Manoel Laurindo, que mantinham contato frequente e chegaram a se encontrar em Cuiabá, publicando registros nas redes sociais.
O ponto alto da exposição de Bontempo envolveu o rastreamento do pagamento pela execução. Segundo o delegado, uma anotação na agenda de Caçadini, datada de 21 de dezembro de 2023, poucos dias após o crime, dizia explicitamente que deveria ir a Cuiabá buscar dinheiro. Cruzando a informação com dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a PF descobriu que, na mesma data, o coronel realizou um depósito em espécie de R$ 60 mil em Rondonópolis, cidade onde Aníbal reside.
“Quando pedimos o intercâmbio das informações com o Coaf, foi identificado que o Caçadini fez um depósito em espécie de R$ 60 mil em Rondonópolis. Esse foi o indicativo de uma parte do pagamento que o Caçadini recebeu, possivelmente em razão da execução do Zampieri”, detalhou Bontempo.
O delegado federal também esmiuçou as capturas de tela e imagens encontradas na galeria do celular de Hedilerson Fialho Martins Barbosa, que comprovem as tratativas diretas entre o intermediário, o executor e o financiador.
O DEPOIMENTO DA POLÍCIA CIVIL
Em seguida, o delegado Nilson Farias, que conduziu investigações primordiais sobre o assassinato pela Polícia Civil, revelou ao promotor de Justiça Samuel Frungilo como a linha de investigação mudou radicalmente após a quebra do sigilo telefônico de Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas.
Farias destacou que o cruzamento de chamadas antes e após o homicídio foi determinante para colocar o coronel reformado no centro do financiamento.
“Foi quando surgiu o nome do Aníbal. O analista identificou que, antes do homicídio, o Caçadini ligou para o Antônio e, logo após o homicídio, ligou para o Aníbal. A partir daí começamos a trabalhar essa situação para identificar se havia mais elementos ligando os dois”, relatou o delegado.
Outro achado contundente ocorreu na análise do aparelho telefônico de Caçadini, que continha o endereço exato do escritório de Roberto Zampieri salvo desde 9 de outubro de 2023, coincidindo com o período em que a vítima protocolou petições cruciais em processos de disputa de terras.
“Foi aí que identifiquei que esse pode ter sido o estopim de tudo. Quando o Zampieri entra com o pedido de apresentação de provas, no mesmo dia aparece a pesquisa do endereço do escritório dele no celular do Caçadini”, enfatizou Nilson Farias.
Por fim, o delegado da Polícia Civil listou materiais comprometedores localizados pela perícia no celular do militar reformado, incluindo fotografias da cena do crime, imagens do corpo de Roberto Zampieri logo após os disparos, cópias de trechos do processo cível da Fazenda Lagoa Azul e o comprovante de passagem aérea de Hedilerson Fialho Martins Barbosa.
Os depoimentos reforçam a tese acusatória de um crime planejado e estruturado com divisão rigorosa de tarefas entre os réus.
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