O preço do diesel no Brasil voltou a enfrentar forte pressão diante da disparada das cotações internacionais do petróleo. A defasagem entre os valores praticados nas refinarias e os preços de referência para importação alcançou níveis próximos aos registrados no início do atual conflito envolvendo Estados Unidos e Irã, aumentando a pressão sobre a Petrobras e o governo federal.
Petróleo Brent supera US$ 100 e amplia pressão sobre combustíveis
O petróleo Brent voltou a ser negociado acima dos US$ 100 por barril nesta quarta-feira (9), atingindo o maior nível em aproximadamente três meses. A alta ocorreu em meio à intensificação dos confrontos entre Estados Unidos e Irã, com novos ataques que tiveram navios-petroleiros entre os principais alvos.
A valorização do petróleo no mercado internacional tem impacto direto sobre os custos de importação de combustíveis. No caso brasileiro, a situação ganha importância principalmente por causa do diesel, cuja oferta nacional não é suficiente para atender integralmente à demanda interna.
A preocupação também está relacionada ao transporte da produção agrícola. O segundo semestre concentra uma parcela significativa do deslocamento de grãos, aumentando a necessidade de diesel para caminhões e outros veículos utilizados na logística da safra.
Preço do diesel registra forte defasagem nas refinarias
Na abertura do mercado na terça-feira (8), o preço do diesel comercializado nas refinarias da Petrobras estava R$ 3,08 abaixo da chamada paridade de importação calculada pela Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).
O valor ficou muito próximo do recorde de defasagem registrado em março, quando a diferença chegou a R$ 3,09 por litro, período marcado pelos primeiros ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Considerando a média nacional, a diferença entre os preços praticados no Brasil e a referência internacional estava em R$ 2,77 por litro.
Na quarta-feira, houve uma redução parcial dessa distância. A defasagem nas refinarias da Petrobras recuou para R$ 2,87 por litro. Apesar da melhora, o cenário ainda representa uma diferença significativa entre o mercado doméstico e os custos internacionais.
Subsídios não cobrem toda a diferença
Com um subsídio equivalente a R$ 1,12 por litro, a diferença restante chegaria a aproximadamente R$ 1,75 por litro em uma eventual operação de importação, considerando os valores apontados no levantamento.
A situação coloca importadores e a Petrobras diante de um cenário de custos elevados. Enquanto empresas privadas tendem a repassar parte do aumento para os consumidores, a estatal mantém os preços de suas refinarias sem alteração desde junho.
Naquele mês, a Petrobras havia reduzido o valor do diesel como forma de compensar parcialmente os efeitos relacionados à retirada de subsídios promovida pelo governo.
Governo libera mais recursos para subsidiar combustíveis
O governo federal também alterou sua estratégia diante da pressão provocada pelo aumento das cotações internacionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma medida provisória autorizando mais R$ 6,6 bilhões em recursos para subsídios aos combustíveis.
A decisão ocorre depois de declarações do Ministério da Fazenda indicando uma intenção de reduzir gradualmente esse tipo de subsídio.
A mudança acontece em um momento de maior atenção sobre os preços dos combustíveis e seus possíveis efeitos sobre a economia. O diesel possui peso relevante nos custos de transporte de mercadorias e produtos agrícolas, podendo influenciar diferentes setores caso os valores permaneçam elevados.
Conflito prolongado pode elevar ainda mais o petróleo
O mercado financeiro acompanha com preocupação a possibilidade de continuidade do conflito até 2027. O banco Goldman Sachs aumentou em US$ 5 por barril sua estimativa para a cotação do petróleo no final de 2026.
Em um cenário de agravamento das tensões, a instituição também trabalha com a possibilidade de o petróleo chegar a US$ 120 por barril no próximo ano. Essa hipótese estaria relacionada principalmente à manutenção de interrupções no Estreito de Hormuz, uma das principais rotas utilizadas para o transporte internacional de petróleo.
Uma eventual redução prolongada do fluxo de petróleo pela região poderia aumentar ainda mais os custos internacionais e ampliar os desafios para países que dependem de importações de derivados.
Diesel está entre os combustíveis mais vulneráveis
O diesel aparece entre os produtos considerados mais suscetíveis a uma eventual escassez no mercado internacional caso os conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia permaneçam por um período prolongado.
No Brasil, a preocupação é maior porque o país apresenta déficit na produção do combustível e precisa recorrer a importações para complementar o abastecimento interno.
Nesse contexto, uma alta prolongada do petróleo pode aumentar os custos dos importadores e ampliar a diferença entre o preço do diesel praticado no mercado brasileiro e os valores internacionais.
Petrobras evita sinalizar reajuste imediato
A Petrobras informou que acompanha diariamente as condições do mercado internacional e os possíveis impactos sobre o mercado brasileiro. Segundo a estatal, sua política considera a necessidade de manter preços competitivos diante das principais alternativas de fornecimento e, ao mesmo tempo, evitar que a volatilidade externa seja transferida diretamente para os consumidores brasileiros.
A empresa, portanto, não indicou um reajuste imediato do diesel em suas refinarias.
Executivos do setor avaliam, entretanto, que a Petrobras poderá absorver parte das perdas provocadas pela atual diferença de preços. A expectativa ocorre em um período de maior sensibilidade política e econômica, especialmente diante da proximidade das eleições presidenciais.

