*Sêmia Mauad/ Opinião MT
O deputado federal Fábio Garcia (União) anunciou a saída dele da vaga de candidato a vice-governador na chapa liderada por Otaviano Pivetta (Republicanos), na última terça-feira, dia 11 de agosto, durante coletiva com a imprensa.
A decisão ocorre na esteira dos desdobramentos da Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal (PF), na qual o parlamentar figura entre os investigados. Com o recuo na chapa majoritária, Garcia confirmou que voltará a disputar um mandato para a Câmara Federal.
O PESO DA DECISÃO E O ALINHAMENTO DO GRUPO
A retirada da candidatura foi tratada como consenso dentro do grupo político. Fábio Garcia pontuou que não carrega sentimentos de injustiça em relação à trajetória e ao espaço que ocupou na vida pública do estado.
“Não me sinto injustiçado. Eu, dentro desse grupo político, fui secretário de governo da Prefeitura de Cuiabá, fui deputado federal, senador da República e chefe da Casa Civil do Governo do Estado. Não posso ter sentimento de injustiça com o meu grupo. Tem realidades que estão postas na nossa frente e a gente precisa ter coragem de tomar decisão. É como o governador Pivetta falou aqui, isso foi um consenso no grupo e vida que segue, levantar a cabeça e seguir trabalhando” afirmou o deputado.
A decisão também foi moldada por medidas cautelares impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Embora a determinação do ministro Flávio Dino proíba o contato entre Fábio Garcia e o ex-governador e candidato ao Senado Mauro Mendes (União), restringindo a presença de ambos em reuniões, atos políticos ou comícios, a decisão judicial não impede candidaturas nem estabelece inelegibilidade. Dessa forma, o caminho jurídico ficou livre para que Garcia redirecionasse sua campanha rumo à reeleição na Câmara Federal.
DEFESA, ACUSAÇÕES E REAÇÕES À OPERAÇÃO HERITAGE
A deflagração da Operação Heritage pela Polícia Federal no início de agosto, investiga um esquema de desvio e ocultação de mais de R$ 308 milhões originados de um acordo tributário firmado entre o Estado de Mato Grosso e a empresa Oi S.A.
Dias antes do anúncio da saída da chapa majoritária, no dia 6 de agosto, Fábio Garcia utilizou as redes sociais para negar veementemente as acusações e criticar a operação, classificando-a como fruto da atuação de “velhos atores da política”. Na ocasião, o parlamentar assegurou que não foi alvo de mandados de busca e apreensão diretos e que a pasta da Casa Civil, por ele chefiada no passado, não teve qualquer envolvimento ou conhecimento sobre o processo da Oi S.A.
“Infelizmente, a política é assim. Há consequências em guerrear contra o mal. É mentira que fui alvo de busca e apreensão. Não fui. A operação da Oi jamais passou pela Casa Civil. Não é atribuição dessa pasta. Não há um ato sequer meu nesse processo. A Casa Civil não teve conhecimento dessa operação” declarou o deputado em vídeo publicado em suas redes sociais, resgatando documentos e declarações de fundos de investimento para refutar o envolvimento de seus familiares no esquema.
O ex-governador Mauro Mendes, também alvo da investigação e candidato ao Senado, classificou a ofensiva policial como uma “armação eleitoral” arquitetada por adversários políticos a exatos 60 dias do pleito, apontando embates com grupos tradicionais dentro do diretório estadual.
A ENGENHARIA FINANCEIRA SOB A LUPA DA POLÍCIA FEDERAL
Apesar das contestações políticas, os relatórios técnicos que embasaram as ordens judiciais expedidas pelo STF apontam um complexo esquema de lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa estruturado em camadas de fundos de investimento para pulverizar os recursos do acordo tributário. A investigação divide a engenharia financeira em dois grandes núcleos principais.
-A primeira cadeia financeira (Núcleo de Mauro Mendes): Concentrada no Royal Capital FIDC, que recebeu 50% dos recursos (cerca de R$ 154 milhões). O esquema utilizou contas de passagem como o Zurich FIM CP para repasses milionários destinados à compra de cotas empresariais, incluindo participações ligadas a familiares do ex-governador.
-A segunda cadeia financeira (Núcleo de Fábio Garcia): O montante remanescente de R$ 154 milhões foi direcionado ao Lotte World FIDC, tendo como principal cotista o empresário Fernando Robério de Borges Garcia (Berinho), pai do deputado. A operação utilizou fundos em cascata para converter capital público em investimentos privados de baixa liquidez.
No total, a Operação Heritage cumpriu 25 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará, além do bloqueio de bens que alcança o limite de R$ 316 milhões, quebras de sigilo fiscal e bancário, e severas restrições cautelares a um extenso rol de investigados, engajando figuras do meio político, jurídico e empresarial.
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