A redução do consumo de açúcar durante os primeiros anos de vida pode estar associada a um menor risco de desenvolver demência na idade adulta. A conclusão é de um estudo publicado na revista Neurology, da Academia Americana de Neurologia, que analisou dados de milhares de pessoas nascidas no Reino Unido após a Segunda Guerra Mundial. Os pesquisadores identificaram que indivíduos expostos a um período de restrição de açúcar na gestação e na primeira infância apresentaram menor incidência da doença décadas mais tarde, além de indicadores mais favoráveis de saúde cerebral.
Restrição de açúcar serviu como base para pesquisa
O trabalho científico utilizou um contexto histórico específico para investigar os efeitos da alimentação nos primeiros anos de vida. Os pesquisadores analisaram informações de 64.737 pessoas nascidas após o fim do racionamento de açúcar no Reino Unido, encerrado em setembro de 1953.
O objetivo foi verificar se a exposição à limitação do consumo de açúcar durante os chamados primeiros 1.000 dias de vida — período que inclui a gestação e os dois primeiros anos após o nascimento — teria alguma relação com o desenvolvimento de demência décadas depois.
Para isso, os participantes foram divididos em grupos conforme o momento em que viveram sob o racionamento. Houve pessoas expostas apenas durante a gestação, outras durante a gestação e o primeiro ano de vida, um terceiro grupo durante a gestação e entre um e dois anos de idade, além daqueles que nasceram quando a restrição já havia terminado.
Açúcar e risco de demência
Os resultados apontaram diferenças relevantes entre os grupos analisados. Segundo os pesquisadores, indivíduos que passaram pelo período de restrição de açúcar durante a gestação e o primeiro ano de vida apresentaram um risco 21% menor de desenvolver demência por qualquer causa quando comparados aos que não foram expostos ao racionamento.
No caso da doença de Alzheimer, considerada a forma mais comum de demência, a redução do risco foi de aproximadamente 23%.
Já entre aqueles que permaneceram sob restrição de açúcar durante a gestação e entre um e dois anos de idade, a diminuição do risco de demência chegou a cerca de 23%. Para Alzheimer, a redução observada foi de 28%.
Os pesquisadores destacam que esses resultados representam uma associação estatística e foram obtidos após a aplicação de modelos que levaram em consideração diferentes fatores que podem influenciar o surgimento da doença.
Avaliação incluiu exames cerebrais e testes cognitivos
Para identificar os casos de demência, a equipe utilizou registros médicos baseados na Décima Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10).
Além disso, uma parte dos participantes foi submetida à realização de exames de ressonância magnética do cérebro e avaliações cognitivas. Esses procedimentos permitiram verificar não apenas o aparecimento da doença, mas também possíveis diferenças na estrutura cerebral e no desempenho mental.
Entre os achados, os indivíduos que tiveram menor exposição ao consumo de açúcar na infância apresentaram maior volume de substância cinzenta, redução das alterações na substância branca e melhor desempenho em testes relacionados à velocidade de processamento das informações e ao raciocínio.
Esses indicadores são frequentemente utilizados em pesquisas para avaliar aspectos da saúde cerebral ao longo do envelhecimento.
Início da doença ocorreu mais tarde
Outro dado observado foi o atraso no aparecimento dos sintomas entre pessoas expostas ao período de restrição de açúcar.
Segundo a pesquisa, nesses participantes, o início da demência ocorreu, em média, cerca de 2,5 anos mais tarde. No caso específico da doença de Alzheimer, esse atraso chegou a aproximadamente 2,9 anos. Já para a demência vascular, o adiamento médio foi novamente de cerca de 2,5 anos.
Embora o estudo não estabeleça uma relação direta de causa e efeito, os autores consideram que esses resultados reforçam a importância da alimentação nos primeiros anos de desenvolvimento.
Outros fatores também influenciaram os resultados
Os pesquisadores também avaliaram condições de saúde que costumam aumentar o risco de demência, como diabetes tipo 2 e hipertensão arterial.
As análises indicaram que essas duas doenças, quando consideradas em conjunto, responderam por aproximadamente 25,5% da associação encontrada entre a restrição de açúcar na infância e a redução do risco de demência.
Isso significa que parte dos benefícios observados pode estar relacionada à menor ocorrência dessas condições ao longo da vida, embora outros mecanismos biológicos ainda precisem ser investigados em estudos futuros.

