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Após 19 anos, Brasil volta a ser devedor internacional, aponta BC

22 de outubro de 2026 17:40

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OpiniãoMT > Blog > Economia > Após 19 anos, Brasil volta a ser devedor internacional, aponta BC
Economia

Após 19 anos, Brasil volta a ser devedor internacional, aponta BC

Brasil volta a ser devedor internacional após dívida externa atingir US$ 407,1 bilhões, superando as reservas internacionais do País.

Redação OPMT
Publicado em: 22 de outubro de 2026
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10 Minutos de Leitura
Dívida Pública Federal chega a R$ 9,29 trilhões em agosto e acumula alta de 7,62% em 2026
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O Brasil voltou à condição de devedor internacional em 2026, após quase duas décadas mantendo uma posição credora nesse indicador. Dados do Banco Central (BC) mostram que a dívida externa brasileira alcançou US$ 407,1 bilhões, ultrapassando as reservas internacionais, estimadas em US$ 402 bilhões. O resultado representa uma mudança no cenário das contas externas do País e marca o maior estoque de endividamento externo registrado em quatro décadas de estatísticas, segundo os dados divulgados.

Devedor internacional: o que mudou nas contas externas do Brasil

Entre 2007 e 2025, o Brasil manteve uma posição favorável na relação entre seus ativos no exterior e as obrigações financeiras com credores estrangeiros. Nesse período, as reservas internacionais e os créditos brasileiros mantidos fora do País superavam o total da dívida externa.

Esse quadro foi alterado com o crescimento das obrigações externas. Em junho, a dívida externa líquida ficou positiva em US$ 5,1 bilhões, indicando que o volume de compromissos superou os ativos considerados nesse cálculo.

Durante o atual governo Lula, a dívida externa aumentou 27,4%, enquanto as reservas internacionais avançaram 15,8%. Entre os fatores que influenciaram a evolução das reservas estão as intervenções do Banco Central no mercado de câmbio e os efeitos da valorização cambial sobre os indicadores.

Apesar da mudança, economistas e agências de classificação de risco não avaliam que a nova condição represente, por si só, uma ameaça imediata à estabilidade financeira brasileira.

Déficit em transações correntes pressiona o resultado

Um dos pontos de atenção para os analistas é o aumento do déficit em transações correntes, indicador que reúne operações comerciais e financeiras relacionadas à circulação de bens, serviços e rendimentos entre o Brasil e outros países.

Mesmo com a entrada de recursos provenientes das exportações, o saldo externo foi pressionado por despesas com serviços, pagamentos de rendimentos ao exterior e outras operações internacionais. Entre os exemplos estão gastos com plataformas de streaming, investimentos em criptoativos e pagamentos de compromissos financeiros a credores estrangeiros.

Em 2024, o déficit em transações correntes chegou a US$ 67,4 bilhões, mais que o dobro dos US$ 27 bilhões registrados em 2023. Esse movimento ocorreu apesar da desaceleração econômica, que tende a reduzir parte da demanda por produtos importados e a saída de recursos associados a determinadas atividades.

A continuidade desse desequilíbrio pode ampliar a necessidade de financiamento externo, especialmente se houver redução da entrada de dólares ou aumento das remessas de recursos para outros países.

Investimento estrangeiro ainda financia o déficit

Os investimentos estrangeiros diretos continuam desempenhando um papel importante no financiamento das contas externas brasileiras. Entretanto, a diferença entre os recursos recebidos e o déficit em transações correntes diminuiu nos últimos anos.

Em 2023, os investimentos diretos superaram o déficit em mais de US$ 38 bilhões. No ano seguinte, essa margem ficou abaixo de US$ 9 bilhões. Em 2025, a diferença voltou a crescer, alcançando US$ 17,6 bilhões, conforme os números apresentados.

A redução dessa margem de cobertura é acompanhada pelos analistas porque uma eventual queda dos investimentos estrangeiros poderia aumentar a pressão sobre o financiamento das obrigações externas.

Reservas internacionais ajudam a limitar os riscos

Embora o Brasil tenha voltado à condição de devedor internacional, alguns indicadores continuam contribuindo para reduzir a possibilidade de uma crise externa. A dívida externa líquida representa menos de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto as reservas internacionais cobrem mais de três vezes os vencimentos de compromissos externos de curto prazo.

Esses números indicam que o País ainda dispõe de recursos relevantes para enfrentar períodos de instabilidade financeira e atender às obrigações que vencem em prazos menores.

No fim de 2024, a pressão sobre o mercado financeiro, em meio às preocupações com a política fiscal, levou o Banco Central a realizar uma intervenção de grande dimensão no regime de câmbio flutuante. Mesmo diante desse episódio, analistas consideram improvável que a dívida externa líquida volte a superar US$ 70 bilhões, patamar observado aproximadamente duas décadas atrás.

As projeções mencionadas apontam para a possibilidade de o indicador atingir US$ 30 bilhões nos próximos dois anos. Essa perspectiva, contudo, depende da evolução das contas externas, dos fluxos de capitais e das condições econômicas nacionais e internacionais.

Dívida externa está concentrada principalmente no setor privado

A composição do endividamento brasileiro também influencia a avaliação dos riscos. Aproximadamente 73% da dívida externa estão vinculados ao setor privado, incluindo bancos e empresas. Essa distribuição reduz a exposição direta do governo federal ao total das obrigações registradas.

Em muitos casos, empresas com dívidas em moeda estrangeira possuem receitas provenientes de exportações ou utilizam instrumentos financeiros para se proteger das oscilações cambiais. Esses mecanismos podem ajudar a diminuir os impactos das variações do dólar sobre suas obrigações.

A parcela associada ao setor público corresponde a aproximadamente um quarto do total. Parte relevante desse montante está relacionada a títulos emitidos em reais no mercado doméstico e adquiridos por investidores estrangeiros. Quando esses papéis pertencem a não residentes, são contabilizados nas estatísticas do Banco Central como dívida externa.

Já a dívida pública federal emitida diretamente em moeda estrangeira soma R$ 348 bilhões, representando menos de 4% do estoque total da dívida pública federal.

Essa distinção é importante porque o indicador de dívida externa inclui diferentes tipos de obrigações, não se limitando aos empréstimos contratados pelo governo em dólares ou em outras moedas estrangeiras.

Tesouro Nacional mantém estratégia de captação no exterior

O Tesouro Nacional considera confortável a capacidade brasileira de cobertura da dívida externa e pretende manter a captação internacional como parte de sua estratégia de financiamento. O objetivo é diversificar as fontes de recursos e administrar os custos e os riscos associados à dívida pública.

De acordo com o Plano Anual de Financiamento (PAF), a intenção é aumentar gradualmente a participação da dívida pública denominada em moeda estrangeira, dos atuais níveis inferiores a 4% para uma meta de 7% do estoque total. A implementação dependerá das condições de mercado e da avaliação dos custos de financiamento.

A estratégia inclui a emissão de títulos de referência em dólar e a ampliação das operações no mercado europeu, com o propósito de consolidar uma curva de referência para títulos brasileiros denominados em euros.

O governo também pretende avaliar uma possível primeira emissão de títulos em yuan, a moeda chinesa. A operação já recebeu autorização do Tribunal de Contas da União (TCU), conforme as informações apresentadas.

Brasil mantém posição credora em outro indicador

Apesar de a dívida externa total ter ultrapassado as reservas internacionais, o Brasil ainda apresenta uma posição credora quando a comparação considera as reservas e a dívida atribuída ao setor público.

Nesse critério específico, a posição líquida favorável equivale a aproximadamente 6% do PIB. O resultado coloca o País em situação mais confortável que a do México, cujas reservas superam a dívida soberana em cerca de 1% do PIB.

Em outros países latino-americanos, como Colômbia, Uruguai e Chile, a dívida soberana supera o volume das reservas internacionais, de acordo com a comparação apresentada.

As diferentes metodologias explicam por que o Brasil pode ser considerado devedor internacional quando se observa o conjunto da dívida externa e, simultaneamente, manter uma posição credora na comparação entre reservas e obrigações do setor público.

Cenário internacional aumenta a disputa por dólares

A estratégia brasileira de financiamento ocorre em um ambiente de concorrência global por recursos. Os juros mais elevados dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, conhecidos como Treasuries, tornam esses investimentos mais competitivos e podem influenciar a distribuição internacional de capitais.

Ao mesmo tempo, a forte demanda por investimentos relacionados à inteligência artificial (IA) amplia a disputa por recursos financeiros entre empresas, governos e diferentes setores da economia mundial.

Esse cenário pode afetar as condições de captação de países emergentes, incluindo o Brasil, especialmente em períodos de maior aversão ao risco ou de mudanças nas expectativas dos investidores.

Além das condições internacionais, a situação fiscal brasileira permanece entre os fatores acompanhados pelas agências de classificação de risco. O desequilíbrio das contas públicas pode pressionar os juros domésticos e elevar o custo de financiamento do governo.

Ainda assim, as reservas internacionais, a exposição relativamente limitada da dívida pública a moedas estrangeiras e a entrada recorrente de investimentos externos continuam sendo apontadas como elementos favoráveis à avaliação do crédito soberano brasileiro.

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