*Sêmia Mauad/ Opinião MT
Após três dias de intenso julgamento e mais de 38 horas de debates e sessões no Fórum de Cuiabá, o Tribunal do Júri condenou, na noite da última quinta-feira, dia 1º de outubro, os três réus envolvidos no assassinato do advogado Roberto Zampieri, morto a tiros em dezembro de 2023. O julgamento foi presidido pelo juiz José Mauro Nagib Jorge, da 11ª Vara Criminal Especializada da Justiça Militar de Cuiabá.

Os réus foram condenados por homicídio qualificado, cometido por motivo torpe e com recurso que dificultou a defesa da vítima, além do crime de emprego de arma de fogo de uso restrito ou proibido. As penas aplicadas variam conforme o grau de participação e a incidência de atenuantes legais, cabendo recursos à decisão em primeira instância.
Hedilerson Fialho Martins Barbosa, apontado como intermediário do crime e fornecedor da arma, foi condenado a 25 anos de reclusão. Para ele, o conselho de sentença e a presidência não reconheceram nenhuma atenuante.
Já Antônio Gomes da Silva, executor confesso dos disparos, foi condenado a 21 anos, 10 meses e 15 dias de reclusão. A pena foi atenuada devido à confissão espontânea do crime perante os jurados.
Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, coronel reformado do Exército, apontado como financiador, foi condenado a 21 anos, 10 meses e 15 dias de reclusão. A pena dele também foi atenuada em razão da idade, por ter mais de 70 anos.
Enquanto isso, o casal Aníbal Manoel Laurindo e Elenice Ballarotti Laurindo, apontados como mandantes do crime, respondem a processos em separado.
BASTIDORES E VERSÕES CONFLITANTES NO PLENÁRIO
Iniciado na última terça-feira, dia 29 de setembro, o julgamento foi marcado por depoimentos tensos e teses opostas. O processo anterior havia sido anulado em julho após um jurado passar mal, exigindo a remarcação da pauta.
O executor confesso, Antônio Gomes da Silva, adotou uma postura agressiva e sem demonstrar arrependimento. Ele assumiu ter atirado em Zampieri no dia 5 de dezembro de 2023, quando a vítima deixava seu escritório no bairro Bosque da Saúde, e alegou ter agido por conta própria, revoltado com supostas irregularidades no Judiciário.
“Matei mesmo e, se fosse preciso matar, mataria de novo porque ele realmente é uma desgraça”, declarou aos jurados.
Por sua vez, Hedilerson Fialho negou qualquer envolvimento na execução e afirmou ter sido traído por Antônio. Segundo ele, os dois se conheceram em um clube de tiro em Minas Gerais e Antônio teria pedido hospedagem em Cuiabá sob o pretexto de participar de uma competição de tiro, utilizando indevidamente a arma que pertencia a Hedilerson.
O coronel reformado Etevaldo Caçadini também negou as acusações, classificando-se como “bode expiatório” e afirmando ser vítima de uma grande injustiça. Ele tentou justificar repasses financeiros e a posse de fotos do escritório e da vítima em seu celular como coincidências ou decorrentes de outras transações pessoais, reclamando ainda de barreiras em sua tentativa de firmar delação premiada.
A TESE DA ACUSAÇÃO
Para o Ministério Público de Mato Grosso, representado pelos promotores de Justiça Samuel Frungilo e Vinícius Gahyva, as negativas das defesas foram desconstruídas pelo robusto conjunto probatório.
A acusação sustentou que o assassinato de Roberto Zampieri, aos 56 anos, foi uma execução minuciosamente planejada em razão de disputas fundiárias milionárias no estado, com destaque para a posse da Fazenda Lagoa Azul, situada em Ribeirão Cascalheira e avaliada em cerca de R$ 100 milhões, cujos interesses defendidos pela vítima contrariavam os mandantes.
Mensagens extraídas de celulares apreendidos, como os registros “Coronel, missão cumprida” e “Iniciando plano de retirada”, comprovaram para o Conselho de Sentença a divisão coordenada de tarefas entre o executor, o intermediário logístico e o financiador do homicídio.

