A bolsa brasileira atravessa um período de maior instabilidade a menos de dois meses do primeiro turno das eleições gerais. O cenário é marcado pela redução da exposição de investidores, especialmente estrangeiros, diante de preocupações relacionadas ao quadro fiscal, às perspectivas econômicas e aos possíveis impactos do próximo ciclo político sobre os mercados financeiros.
Bolsa brasileira sofre com saída de investidores
Na segunda-feira (10), investidores estrangeiros retiraram aproximadamente R$ 1,7 bilhão do mercado secundário da B3. Esse segmento reúne negociações de ativos que já foram emitidos, permitindo que ações e outros investimentos sejam comprados e vendidos entre os participantes do mercado.
A movimentação ocorreu em um momento de aumento da cautela entre os investidores. A proximidade das eleições tende a elevar a atenção do mercado sobre as decisões econômicas que poderão ser adotadas pelo próximo governo e sobre a trajetória das contas públicas.
O impacto também foi percebido no exterior. O EWZ, fundo de índice negociado em Nova York que reúne ações de empresas brasileiras, voltou a ficar abaixo de sua média móvel de 200 dias. O movimento interrompeu a sequência de valorização observada anteriormente.
O fundo, administrado pela BlackRock, é negociado em dólar e oferece aos investidores internacionais exposição a uma carteira formada por grandes companhias brasileiras.
Incertezas eleitorais aumentam a cautela
Em relatório divulgado aos clientes, a equipe de ações para a América Latina do J.P. Morgan avaliou que o período eleitoral tende a ser acompanhado por maior volatilidade nos ativos brasileiros.
Segundo a instituição financeira, a aproximação das eleições reduz o espaço para novas altas e pode levar o mercado brasileiro a apresentar desempenho mais fraco nos meses que antecedem o pleito. Em julho, o EWZ havia acumulado valorização de 6,3%.
A avaliação ocorre em um momento no qual os investidores acompanham de perto os indicadores fiscais e as perspectivas para a economia brasileira a partir de 2027.
Fluxo de investidores na B3
Dados divulgados pela B3 mostram que o comportamento dos diferentes grupos de investidores tem sido desigual.
No dia 10 de agosto, investidores institucionais registraram entrada de R$ 1,8 bilhão. Considerando o acumulado do mês, o grupo apresenta saldo positivo de R$ 2,7 bilhões. No resultado acumulado de 2026, entretanto, o saldo permanece negativo em R$ 37,3 bilhões.
Entre os investidores individuais, houve entrada de R$ 85,4 milhões na segunda-feira. No mês, o saldo dessa categoria está positivo em R$ 760,9 milhões. No acumulado do ano, o resultado chega a R$ 4,9 bilhões.
Já os investidores estrangeiros, apesar das retiradas recentes, acumulam saldo positivo de R$ 29,2 bilhões no ano.
Ibovespa recua ao menor patamar desde janeiro
A pressão sobre a bolsa brasileira ficou ainda mais evidente na terça-feira (11), quando o Ibovespa terminou o pregão com queda de 2,55%, aos 167,8 mil pontos. Foi o menor fechamento do principal índice acionário do país desde 20 de janeiro.
Entre os fatores que contribuíram para o movimento esteve a mudança na avaliação do J.P. Morgan sobre as ações brasileiras. O banco reduziu sua recomendação para a Bolsa do Brasil, passando de uma posição equivalente à compra para uma classificação neutra.
Para analistas, a forte participação do capital estrangeiro no mercado doméstico faz com que o Ibovespa reaja de maneira mais intensa às mudanças no ambiente internacional e às notícias relacionadas à economia.
Política monetária também influencia o mercado
Outro elemento acompanhado pelos investidores foi a ata da reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central. O documento reforçou a sinalização de cautela da autoridade monetária em relação à condução dos juros.
A divulgação do IPCA de julho também influenciou as expectativas. O índice oficial de inflação registrou alta de 0,07% no mês, resultado ligeiramente acima da projeção de 0,03% que vinha sendo considerada pelo mercado.
A combinação entre uma inflação um pouco mais elevada do que o esperado e a postura cautelosa do Banco Central aumentou as dúvidas sobre a velocidade de eventuais reduções dos juros.
Cenário internacional amplia a aversão ao risco
Além dos fatores domésticos, acontecimentos externos contribuíram para a piora do ambiente nos mercados.
As negociações relacionadas ao Estreito de Ormuz perderam força, enquanto o Irã voltou a afirmar que a passagem não será reaberta antes que suas condições sejam atendidas. A perspectiva contribuiu para aumentar a percepção de risco nos mercados internacionais.
As bolsas estrangeiras chegaram a iniciar os pregões em alta, mas posteriormente devolveram parte dos ganhos. O movimento refletiu uma postura mais defensiva por parte dos investidores diante das incertezas geopolíticas.
Mercado acompanha próximos dados dos Estados Unidos
Os investidores também aguardavam novos números de inflação dos Estados Unidos. Os dados são considerados relevantes para as próximas decisões do Federal Reserve, o banco central norte-americano, especialmente em relação à trajetória dos juros.
A combinação de fatores internos e externos levou os participantes do mercado a reduzir a exposição a ativos considerados mais arriscados. Nesse contexto, a bolsa brasileira terminou o pregão pressionada, enquanto o Ibovespa atingiu o menor nível em quase sete meses.

