*Sêmia Mauad/ Opinião MT
Entra no segundo dia nesta quarta-feira, dia 29 de julho, o Tribunal do Júri que apura as responsabilidades pelo assassinato do advogado Roberto Zampieri, de 57 anos, morto em dezembro de 2023.
A sessão é retomada a partir das 9h, no Fórum da Capital, sob a presidência do juiz José Mauro Nagib Jorge, titular da 11ª Vara Criminal Especializada da Justiça Militar de Cuiabá.
Sentam no banco dos réus Antônio Gomes da Silva, apontado como executor confesso, Hedilerson Fialho Martins Barbosa, apontado como intermediário, e o coronel reformado do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, indicado como financiador da execução.
A acusação perante o plenário é conduzida pelos promotores de Justiça Samuel Frungilo e Vinícius Gahyva. A defesa dos réus está a cargo dos advogados Felipe André Laranjo, Ronaldo Lara Junior, Sarah Quinetti Pironi, Jayme Rodrigues Carvalho Junior e Patrick Igor Lopes Alves.
RETROSPECTIVA: O PRIMEIRO DIA DE JULGAMENTO E OS DEPOIMENTOS CHAVES
O Tribunal do Júri teve início na última terça-feira, dia 28 de julho, e foi marcado por depoimentos técnicos contundentes de autoridades policiais, que expuseram conexões financeiras, registros de monitoramento e o envolvimento de figuras centrais na trama criminosa.
O DEPOIMENTO DA POLÍCIA FEDERAL
Responsável por destrinchar o conteúdo extraído do celular do advogado Roberto Zampieri, o delegado da Polícia Federal Marco Bontempo apresentou evidências cruciais sobre as pressões enfrentadas pela vítima e o fluxo financeiro ligado ao crime.
Bontempo revelou que mensagens encontradas no aparelho do advogado apontam que o desembargador Sebastião de Moraes Filho relatou ter sofrido ameaças do fazendeiro Aníbal Manoel Laurindo, suposto mandante do assassinato. Pouco depois do episódio, o magistrado declarou suspeição para atuar no processo, decisão que chegou a ser contestada por Zampieri.
“O desembargador relata que teria havido um contato com o Aníbal e que o Aníbal estava ameaçando ele em relação a um processo, afirmando que tinha provas ou imagens que poderiam comprometer o desembargador Sebastião. Dias depois, o desembargador Sebastião dá uma decisão se declarando suspeito, e o Zampieri até se manifesta contrário a essa alegação de suspeição do desembargador”, pontuou o delegado federal.
A PF também mapeou a proximidade entre o coronel reformado Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas e Aníbal Manoel Laurindo, que mantinham contato frequente e chegaram a se encontrar em Cuiabá. O ponto alto da exposição de Bontempo envolveu o rastreamento do pagamento pela execução. Uma anotação na agenda de Caçadini, datada de 21 de dezembro de 2023, trazia a instrução para ir a Cuiabá apanhar dinheiro. Cruzando a informação com dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a PF descobriu que, na mesma data, o coronel realizou um depósito em espécie de R$ 60 mil em Rondonópolis, cidade onde Aníbal reside.
“Quando pedimos o intercâmbio das informações com o Coaf, foi identificado que o Caçadini fez um depósito em espécie de R$ 60 mil em Rondonópolis. Esse foi o indicativo de uma parte do pagamento que o Caçadini recebeu, possivelmente em razão da execução do Zampieri”, detalhou Bontempo, que também esmiuçou capturas de tela no celular de Hedilerson Fialho Martins Barbosa comprovando as tratativas entre os envolvidos.
O DEPOIMENTO DA POLÍCIA CIVIL
Em seguida, o delegado Nilson Farias, que conduziu investigações primordiais pela Polícia Civil, revelou como a linha de investigação mudou radicalmente após a quebra do sigilo telefônico de Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas. O cruzamento de chamadas antes e após o homicídio foi determinante para colocar o coronel no centro do esquema:
“Foi quando surgiu o nome do Aníbal. O analista identificou que, antes do homicídio, o Caçadini ligou para o Antônio e, logo após o homicídio, ligou para o Aníbal. A partir daí começamos a trabalhar essa situação para identificar se havia mais elementos ligando os dois”, relatou.
Outro achado contundente ocorreu na análise do aparelho telefônico de Caçadini, que continha o endereço exato do escritório de Roberto Zampieri salvo desde 9 de outubro de 2023, coincidindo com o período em que a vítima protocolou petições cruciais em processos de disputa de terras. Por fim, a perícia encontrou no celular do militar reformado fotografias da cena do crime, imagens do corpo de Roberto Zampieri logo após os disparos, trechos do processo cível da Fazenda Lagoa Azul e o comprovante de passagem aérea de Hedilerson Fialho Martins Barbosa.
Os trabalhos seguem nesta quarta-feira com novas oitivas e debates em plenário.

