O número de empresas em recuperação judicial no Brasil alcançou um recorde no primeiro semestre de 2026. Dados da consultoria RGF Bizdoc mostram que 7.980 CNPJs estavam submetidos ao processo até o fim de junho, em um cenário marcado pelo crédito mais caro, menor ritmo de crescimento da economia e aumento da inadimplência empresarial.
O levantamento aponta que o estoque de empresas nessa situação cresceu 8% desde dezembro de 2025. Na comparação com junho do ano passado, a alta chegou a 21,2%, indicando uma deterioração das condições financeiras enfrentadas por negócios de diferentes setores da economia.
Recuperação judicial avança entre empresas brasileiras
Quando são retiradas da estatística as microempresas, organizações não governamentais, filiais e companhias consideradas inativas, o levantamento identifica 6.341 empresas em recuperação judicial.
Nesse recorte, o crescimento foi de 6,2% nos primeiros seis meses do ano. Em relação ao mesmo período de 2025, entretanto, a expansão permaneceu em 21,2%.
O aumento ocorre em um ambiente de maior pressão sobre o caixa das empresas. Com as taxas de juros elevadas, a contratação ou renovação de empréstimos se tornou mais onerosa, dificultando a capacidade de pagamento de companhias que já enfrentavam problemas financeiros.
Comércio concentra maior número de empresas
O comércio aparece na liderança entre os setores com maior quantidade absoluta de empresas em recuperação judicial. Ao todo, são 1.649 companhias incluídas nesse segmento.
A indústria de transformação vem logo depois, com 1.455 empresas. Já a agropecuária reúne 1.263 companhias e chama atenção principalmente pelo ritmo de crescimento registrado no período.
No intervalo de 12 meses, o número de empresas do setor agropecuário em recuperação judicial aumentou 66%. O desempenho supera significativamente a evolução observada nos demais segmentos analisados pelo levantamento.
Pequenas empresas apresentam forte crescimento
Os dados da RGF Bizdoc também mostram uma expansão expressiva dos processos envolvendo negócios de menor porte.
Entre as microempresas, o estoque chegou a 1.575 companhias, resultado que representa aumento de 52% em um ano. O percentual é superior ao crescimento médio registrado no conjunto das empresas analisadas.
No grupo das pequenas empresas, foram contabilizados 1.246 CNPJs em recuperação judicial. Nesse caso, a elevação anual foi de 30%.
Entre os fatores relacionados ao avanço estão o encarecimento do crédito, dificuldades administrativas e alterações na legislação que ampliaram o acesso de empresas menores ao mecanismo de recuperação judicial.
Crédito empresarial fica mais caro
A situação financeira das companhias também é afetada pelo aumento das taxas cobradas nas operações de crédito.
A taxa média dos empréstimos destinados às pessoas jurídicas passou de 23,5% ao ano, em dezembro de 2025, para 25,4% em julho de 2026. O aumento eleva o custo financeiro para empresas que dependem de capital de terceiros para manter suas atividades ou reorganizar dívidas.
Outro indicador que apresentou piora foi a inadimplência empresarial. O índice passou de 3,5% para 4,2% no período analisado.
O cenário torna mais difícil a recuperação financeira de empresas que já possuem compromissos elevados, especialmente aquelas de pequeno e médio porte, que normalmente apresentam menor capacidade de absorver aumentos significativos nos custos de financiamento.
Economia perde ritmo no primeiro semestre
O aumento dos casos de recuperação judicial também ocorre em meio à desaceleração da atividade econômica brasileira.
O Produto Interno Bruto (PIB) registrou crescimento de 1,9% no primeiro semestre de 2026, considerando a comparação com os seis primeiros meses do ano anterior. O resultado ficou abaixo da expansão de 2,7% observada na mesma base de comparação um ano antes.
Com um crescimento econômico mais moderado, empresas podem encontrar maior dificuldade para ampliar vendas, gerar receitas e manter margens suficientes para cumprir suas obrigações financeiras.
Especialistas consultados pelo Estadão relacionam parte das dificuldades ao cenário fiscal brasileiro. Segundo as avaliações citadas, o desequilíbrio das contas públicas contribui para manter elevados os juros de longo prazo, aumentando o custo de financiamento para empresas.
Cenário pode continuar pressionando empresas
A combinação entre crédito mais caro, inadimplência crescente e menor velocidade de expansão da economia mantém o ambiente desafiador para o setor empresarial.
As empresas de menor porte aparecem entre as mais expostas a esse cenário. O crescimento dos pedidos e registros de recuperação judicial entre micro e pequenas companhias ocorre justamente em um período de maior dificuldade para acessar financiamento em condições favoráveis.
A expectativa apresentada por especialistas é de que o número de empresas em recuperação judicial continue avançando durante o segundo semestre de 2026. Os negócios de pequeno porte estão entre os grupos que podem concentrar parte relevante desse movimento.

