O Ministério Público do Trabalho (MPT) anunciou a abertura de um procedimento preliminar para investigar denúncias de assédio moral e sexual envolvendo funcionários da BYD na unidade industrial de Camaçari, na Bahia. A iniciativa foi tomada após o Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari divulgar, por meio das redes sociais, relatos recebidos de trabalhadores sobre supostas irregularidades no ambiente de trabalho da montadora.
MPT inicia apuração das denúncias envolvendo a BYD
Embora o sindicato tenha afirmado publicamente ter recebido dezenas de relatos de assédio sexual e centenas de denúncias relacionadas ao assédio moral, até o momento não houve a formalização oficial dessas acusações junto ao Ministério Público do Trabalho.
Mesmo sem uma representação formal, o órgão decidiu instaurar um procedimento inicial para reunir informações e verificar a veracidade das denúncias apresentadas. Como parte da investigação, representantes da entidade sindical deverão ser convocados para detalhar os relatos e apresentar os elementos que fundamentam as acusações.
Além dessa nova apuração, o MPT informou que já acompanha outro caso envolvendo suspeita de assédio moral na empresa, também em fase preliminar de investigação.
Sindicato relata dificuldades para reunir denúncias
Trabalhadoras teriam receio de denunciar
Segundo informações divulgadas pelo presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, Julio Bonfim, diversas funcionárias do setor operacional relataram episódios de assédio durante o exercício de suas atividades.
De acordo com o dirigente sindical, os relatos apontam que perseguições e situações de constrangimento teriam sido praticadas tanto por lideranças brasileiras quanto por gestores chineses, embora, segundo ele, a maior parte das denúncias mencione supervisores estrangeiros.
Bonfim afirmou ainda que o ambiente de pressão constante favoreceria a ocorrência de outros tipos de violência, incluindo casos de assédio sexual.
Outro obstáculo apontado pelo sindicato é o medo das vítimas em formalizar as denúncias. Conforme explicou o dirigente, muitas trabalhadoras preferem permanecer em silêncio por receio de sofrer represálias dentro da empresa, o que dificulta dimensionar a quantidade real de casos.
Relatos incluem acusações de contato físico indevido
Entre os episódios mencionados pelo sindicato está a denúncia contra um funcionário de nacionalidade chinesa que, conforme relatos recebidos pela entidade, teria cometido assédio sexual contra três colaboradoras, praticando contato físico sem consentimento.
Inicialmente, a informação recebida pelo sindicato indicava que o trabalhador teria retornado à China. Posteriormente, porém, a entidade afirmou ter sido informada de que ele apenas foi transferido para outro setor da fábrica.
O sindicato afirma acompanhar a situação e cobra medidas que garantam proteção às trabalhadoras e apuração dos fatos.
Trabalhadores realizaram paralisação na fábrica
Na última semana, funcionários da unidade industrial realizaram uma assembleia seguida de paralisação do primeiro turno das atividades.
Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, aproximadamente 2,5 mil trabalhadores participaram da mobilização. A entidade estima que a interrupção das operações tenha impedido a produção de cerca de 600 veículos.
Entre as reivindicações apresentadas está a criação de um programa permanente voltado à prevenção de assédio moral e sexual, com ações de conscientização, orientação e fortalecimento das relações interpessoais no ambiente corporativo.
BYD afirma adotar política de tolerância zero
Em manifestação oficial, a BYD informou que possui política de tolerância zero para qualquer prática de assédio dentro da empresa.
A montadora declarou que mantém mecanismos destinados à prevenção e investigação de denúncias, além da adoção de medidas disciplinares quando houver comprovação de irregularidades. Conforme a empresa, as sanções podem incluir desligamento dos envolvidos.
A fabricante também informou disponibilizar um canal de denúncias por e-mail, divulgado nas áreas de produção da fábrica, permitindo que trabalhadores comuniquem possíveis ocorrências de forma anônima.
Histórico da fábrica da BYD no Brasil
A implantação da fábrica da BYD em Camaçari teve início em 2024, marcando a instalação da montadora chinesa em uma das principais regiões industriais da Bahia. Em abril de 2026, entretanto, a empresa passou a integrar o cadastro de empregadores conhecido como “lista suja” do trabalho escravo, elaborado pelo Ministério do Trabalho e Emprego. A inclusão ocorreu em razão da investigação sobre a situação de 163 trabalhadores chineses que atuavam na construção da unidade e que, segundo as autoridades, teriam sido submetidos a condições análogas à escravidão.
Poucos dias após a divulgação da lista, a empresa obteve decisão liminar na Justiça, suspendendo temporariamente sua permanência no cadastro enquanto o processo continua sendo analisado judicialmente.

