O território dos Yanomamis registrou 1.138 mortes de indígenas entre 2023 e 2025, de acordo com dados do Ministério da Saúde encaminhados ao Congresso Nacional. O levantamento aponta que o número de óbitos nos três primeiros anos do governo Luiz Inácio Lula da Silva supera os 951 registros contabilizados entre 2019 e 2021, período correspondente aos três primeiros anos da gestão de Jair Bolsonaro.
Os dados mostram que foram registradas 435 mortes em 2023, outras 347 em 2024 e 356 em 2025. Entre as principais causas identificadas estão doenças respiratórias, desnutrição e malária, além de outros problemas relacionados às condições de saúde e à situação humanitária enfrentada pelas comunidades indígenas.
Yanomamis enfrentam cenário de crise humanitária
O levantamento do Ministério da Saúde ocorre em meio a uma série de dificuldades enfrentadas no atendimento à população indígena que vive na região. Um relatório elaborado por uma subcomissão temporária do Senado, criada para acompanhar a crise humanitária dos Yanomamis, aponta problemas estruturais e operacionais que afetam a prestação de serviços públicos no território.
Segundo o documento, uma das principais dificuldades está relacionada ao transporte. A assistência médica depende em grande parte de deslocamentos por via aérea, enquanto a quantidade limitada de voos e as condições climáticas podem dificultar a chegada de equipes de saúde e a retirada de pacientes que necessitam de atendimento especializado.
O relatório também menciona obstáculos relacionados ao fornecimento de medicamentos, além de problemas na estrutura destinada ao atendimento dos indígenas que precisam deixar suas comunidades para receber cuidados médicos.
Saúde e assistência enfrentam dificuldades
Entre os pontos citados no levantamento estão a paralisação de obras de reforma da Casa de Saúde Indígena Yanomami (CASAI-Y), interrupções nas atividades escolares em determinadas aldeias e redução na distribuição de cestas básicas.
O acesso dos indígenas a programas e benefícios sociais também aparece entre os problemas identificados. De acordo com o relatório, as dificuldades de logística e de deslocamento acabam interferindo na capacidade do poder público de manter ações regulares nas comunidades mais afastadas.
As condições de saúde permanecem entre os principais pontos de preocupação. Do total de 1.138 mortes registradas entre 2023 e 2025, 219 foram associadas a infecções respiratórias agudas. A desnutrição aparece relacionada a 104 óbitos, enquanto a malária foi apontada em 47 casos.
Garimpo ilegal dificulta atuação do Estado
Outro fator destacado no relatório do Senado é a permanência do garimpo ilegal e a presença de grupos criminosos armados em áreas do território Yanomami.
O documento relata situações envolvendo confrontos, circulação de armas de fogo e atuação de organizações relacionadas à exploração ilegal de recursos naturais. Esse cenário, segundo a subcomissão, representa uma dificuldade adicional para a entrada de equipes de saúde, fiscalização e assistência em determinadas comunidades.
A presença desses grupos também interfere nas ações de órgãos públicos responsáveis por acompanhar a situação dos Yanomamis. Em áreas consideradas de difícil acesso, a combinação entre distância, limitações de transporte e insegurança pode comprometer a continuidade dos serviços oferecidos à população.
Mortes superam registros do início da gestão anterior
Os números divulgados pelo Ministério da Saúde também permitem uma comparação entre os primeiros três anos das administrações de Lula e Bolsonaro, considerando os dados apresentados no relatório.
Durante os três primeiros anos do governo Bolsonaro, foram contabilizados 951 óbitos no território Yanomami. Na gestão seguinte, entre 2023 e 2025, o levantamento aponta 1.138 mortes.
Na série mais recente, 2023 concentrou o maior número de registros, com 435 óbitos. Em 2024, foram 347 mortes, enquanto 2025 terminou com 356 registros.
Na administração anterior, foram contabilizadas 263 mortes em 2019, 334 em 2020 e 354 em 2021. Em 2022, último ano daquele governo, foram registradas outras 343 mortes.
Os dados mostram que o problema já apresentava evolução durante os anos anteriores. O número de óbitos passou de 263 em 2019 para 334 em 2020 e chegou a 354 em 2021, período que também foi marcado pelos impactos da pandemia de Covid-19.
Governo amplia estrutura, mas crise continua
A gestão Lula iniciou o mandato com a promessa de ampliar políticas públicas voltadas à proteção dos povos indígenas, incluindo ações nas áreas de saúde, assistência social e segurança. O atual governo também criou o Ministério dos Povos Indígenas, comandado por Sonia Guajajara.
Apesar da ampliação da estrutura institucional e da destinação de recursos para ações na região, os números do Ministério da Saúde indicam que as mortes permaneceram em patamar elevado entre 2023 e 2025.
A situação passou a ser acompanhada também por autoridades do Congresso e do Judiciário. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, procurou a senadora Damares Alves, presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, para discutir uma possível missão ao território Yanomami.
A proposta é acompanhar presencialmente as condições encontradas nas comunidades e verificar a execução das medidas destinadas ao enfrentamento da crise.

