*Sêmia Mauad/ Opinião MT
O escândalo que revelou conexões íntimas e operacionais entre suspeitas e a cúpula do crime organizado em Mato Grosso avançou para a fase judicial. O juiz Jean Garcia de Freitas Bezerra, da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, acolheu integralmente a denúncia formulada pelo Ministério Público do Estado (MPMT) e transformou em réus os alvos de uma investigação conduzida pela Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO). A decisão, assinada pelo promotor de Justiça João Batista de Oliveira no dia 11 de setembro, teve a publicação oficializada nesta sexta-feira, dia 18 de setembro.
Entre os nomes alvos da denúncia e que viraram réus na ação penal estão a missionária Rhavenna Barcelos Cabeça de Almeida, de 31 anos, e a mãe dela, a pastora Orminda Carlos Barcelos Almeida, de 56 anos, além de outras duas filhas de Orminda.
O grupo responde pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Na mesma decisão, o magistrado determinou a manutenção da prisão preventiva de Rhavenna.
As investigações do GCCO, baseadas em relatórios técnicos de quebra de sigilo telemático e análise de dados extraídos de uma conta de iCloud, descortinaram uma rede de intensa proximidade entre as suspeitas e os principais nomes da facção criminosa instalada no estado.
De acordo com os autos, Rhavenna possuía contato direto e constante com diversos expoentes da criminalidade, fundador da facção Renildo da Silva Rios, “Velhote”, apontado como conselheiro final da organização, e figuras como Sandro Silva Rabelo, “Sandro Louco”, fundador e líder do grupo, e Paulo Witer (“WT”), tesoureiro. Além disso, apurou-se que Rhavenna manteve relacionamento afetivo com Jonas Souza Gonçalves Júnior, “Batman”, apontado como uma das principais lideranças da facção e atualmente foragido da Justiça.
O ESCÂNDALO DO “RODÍZIO SEXUAL” NA PCE
Relatório técnico da Polícia Civil que detalhou a dinâmica de um suposto “rodízio sexual” dentro da Penitenciária Central do Estado (PCE).
Conforme o inquérito policial, integrantes ligadas ao grupo religioso denominado “Resgatando Vidas” mantinham vínculos amorosos e visitas frequentes a detentos de alta periculosidade. A motivação por trás do esquema envolvia desde a expectativa de vantagens financeiras até o suporte logístico aos líderes encarcerados.
As evidências foram amparadas em dezenas de diálogos interceptados. Em uma das conversas, datada de novembro de 2025, a investigada Wiara Lima Cadore detalhava a logística das visitas a Rhavenna.
“Gata, cada dia eu vou visitar um. Vou aproveitar o feriado, porque é dia de presídio. Gata, vai ser um por um, para nenhum ficar brigado um com o outro”.
Em outros trechos, as envolvidas comentavam sobre a divisão estratégica para atender aos chefões da facção sem gerar atritos internos no presídio.
Embora Wiara Lima Cadore tenha tido suas conversas e articulações expostas de forma central nos relatórios do GCCO, e chegado a ser formalmente indiciada pelo crime de falso testemunho em decorrência de depoimentos prestados, ela não figurou entre os seis denunciados iniciais do processo principal que agora tramita na 7ª Vara Criminal.
Com o recebimento da denúncia pelo juiz Jean Garcia de Freitas Bezerra, o processo entra na fase de instrução criminal, onde a defesa dos réus será ouvida e as provas coletadas pela polícia serão submetidas ao contraditório judicial. As apurações da Polícia Civil continuam para esgotar eventuais ramificações da rede investigada.

