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8 de julho de 2026 14:56

OpiniãoMT > Blog > Brasil > Idosa trabalhou 55 anos sem salário para família no Ceará
Brasil

Idosa trabalhou 55 anos sem salário para família no Ceará

Idosa resgatada em condomínio de luxo no Ceará passou 55 anos sem salário e vivia em situação análoga à escravidão, segundo fiscalização.

última atualização: 8 de julho de 2026 13:34
Redação OPMT
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7 Minutos de Leitura
Idosa trabalhou 55 anos sem salário para família no Ceará
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A idosa de 62 anos encontrada em situação análoga à escravidão em um condomínio de alto padrão localizado em Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza, levava uma rotina marcada por isolamento, dependência e ausência de autonomia, conforme informações da Auditoria-Fiscal do Trabalho. Segundo a coordenadora do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM), Maria Neuzeli, a trabalhadora jamais teve uma vida pessoal independente e permaneceu durante décadas dedicada exclusivamente aos cuidados da residência e das crianças da família.

De acordo com a investigação, a mulher permaneceu por aproximadamente 55 anos sem receber remuneração regular pelos serviços prestados. A rotina diária começava por volta das 4h30 da manhã, quando preparava o café da família, organizava a saída das crianças para a escola e, ao longo do dia, realizava todas as tarefas domésticas necessárias para o funcionamento da casa.

Idosa exercia diversas funções sem vínculo formal

Segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT), a trabalhadora desempenhava múltiplas atividades diariamente. Além da limpeza da residência, ela preparava refeições, organizava os ambientes e cuidava diretamente das crianças da família.

Durante a fiscalização, os auditores constataram que não havia registro formal de emprego e que a remuneração nunca foi paga de forma regular durante décadas de trabalho.

Ainda conforme a equipe de fiscalização, a mulher não sabia ler, não possuía conta bancária, desconhecia como se locomover pela cidade sozinha e mantinha contato extremamente limitado com pessoas fora do ambiente onde vivia.

Isolamento impediu construção de vida social

Os relatos colhidos pela fiscalização mostram que a trabalhadora não desenvolveu relações sociais ao longo da vida. Ela nunca frequentava locais públicos desacompanhada, não possuía amizades no condomínio e sequer manteve relacionamentos afetivos.

Segundo Maria Neuzeli, a vítima chegou a relatar que, na década de 1980, uma pessoa demonstrou interesse em se aproximar dela, porém a família interrompeu esse contato. Conforme a auditora, a mulher cresceu acreditando que alimentação, roupas e moradia representavam uma forma de pagamento suficiente pelos serviços prestados.

A fiscalização classificou a situação como um contexto de extrema dependência psicológica e econômica, no qual a vítima permaneceu privada da possibilidade de construir autonomia ao longo da vida.

Denúncia anônima deu início às investigações

A apuração começou após uma denúncia registrada no Disque 100, canal do Governo Federal destinado ao recebimento de denúncias sobre violações de direitos humanos. Após a investigação, os auditores concluíram que a trabalhadora permaneceu por mais de cinco décadas submetida a uma relação sem remuneração adequada, sem acesso à educação formal e vivendo continuamente sob dependência do mesmo núcleo familiar desde a infância.

Mesmo apresentando quadro de hipertensão e episódios frequentes de mal-estar em situações de estresse, ela continuava executando normalmente todas as tarefas domésticas e os cuidados com duas crianças, de 7 e 11 anos.

TAC prevê indenização, imóvel e pagamento de direitos

Após a fiscalização, os empregadores assinaram um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT). Entre os compromissos assumidos estão:

  • regularização das contribuições previdenciárias referentes ao período reconhecido;
  • pagamento de R$ 50 mil em verbas rescisórias, divididos em dez parcelas mensais;
  • aquisição de um imóvel residencial no valor mínimo de R$ 150 mil para a trabalhadora, incluindo móveis e eletrodomésticos essenciais;
  • custeio das contribuições previdenciárias até que ela obtenha aposentadoria;
  • complementação financeira de até R$ 12 mil caso o benefício previdenciário não seja concedido até os 64 anos.

Segundo a Auditoria-Fiscal, o acordo não impede futuras ações judiciais para cobrança de outros direitos trabalhistas e indenizações eventualmente devidas.

Créditos trabalhistas podem superar R$ 1,5 milhão

A Auditoria-Fiscal estima que, considerando salários não pagos, férias, 13º salário, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), horas extras, verbas rescisórias e demais direitos previstos na legislação, os créditos trabalhistas podem ultrapassar R$ 1,5 milhão. Para fins do acordo firmado, entretanto, foi reconhecido o vínculo empregatício referente ao período iniciado em julho de 2014, quando a trabalhadora passou a prestar serviços na última residência da família.

Família contesta acusações

Em nota encaminhada por meio do escritório BFB Advogados Associados, a família negou as acusações apresentadas pelos órgãos de fiscalização. Segundo a defesa, a convivência mantida com a trabalhadora ao longo dos anos era baseada em vínculos pessoais, cuidado e afeto, afirmando que a situação não corresponde à caracterização divulgada pelas autoridades.

A nota também sustenta que não houve resgate da mulher, alegando que ela permanece convivendo com a família em uma relação considerada incompatível com a interpretação apresentada pelos órgãos públicos.

História teve início ainda na infância

As investigações apontam que a origem do caso remonta à década de 1970. Conforme a Auditoria-Fiscal, a mãe da trabalhadora também prestou serviços para a mesma família durante a adolescência. Posteriormente, já vivendo no interior do Piauí e enfrentando dificuldades financeiras, ela teria sido procurada novamente pela antiga empregadora. Na ocasião, retornou ao Ceará acompanhada de duas filhas.

Segundo relatos obtidos durante a fiscalização, uma das meninas, então com aproximadamente sete anos, permaneceu com a família empregadora e passou a executar tarefas domésticas ainda na infância. Com o passar dos anos, a trabalhadora foi sendo transferida entre diferentes gerações da mesma família, sempre desempenhando atividades domésticas e cuidando das crianças que nasciam em cada residência.

Acompanhamento psicossocial busca garantir autonomia

Apesar do resgate, a mulher permanece temporariamente no imóvel onde trabalhava. A Auditoria-Fiscal explicou que a medida foi adotada após avaliação técnica da equipe psicossocial, considerando o elevado grau de dependência emocional e social desenvolvido ao longo de décadas.

Segundo o órgão, a prioridade neste momento é garantir a segurança da vítima, promover sua reinserção social de forma gradual e assegurar que ela desenvolva autonomia antes de deixar definitivamente o ambiente. A Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará informou que a família biológica da trabalhadora já foi localizada, mas o processo de reaproximação será conduzido de maneira cuidadosa devido ao longo período de afastamento.

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