A atuação do garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé, localizada no oeste de Mato Grosso, ganhou um novo capítulo após investigações da Polícia Federal apontarem que o Comando Vermelho (CV) assumiu o controle de uma das principais áreas de extração clandestina de ouro da região. Segundo os investigadores, a facção criminosa deixou de atuar apenas como força de proteção armada aos garimpeiros e passou a administrar diretamente parte da atividade ilegal, utilizando o ouro extraído para financiar outras práticas criminosas.
A ofensiva das autoridades ocorre por meio de uma força-tarefa, que reúne diversos órgãos de fiscalização e segurança desde o mês de março. A operação busca interromper a exploração mineral irregular, combater organizações criminosas e recuperar uma área considerada estratégica tanto do ponto de vista ambiental quanto da proteção aos povos indígenas.
Garimpo na Terra Indígena Sararé preocupa autoridades
A Terra Indígena Sararé é ocupada pelo povo Nambikwara desde sua demarcação oficial, em 1985. O território abrange aproximadamente 67 mil hectares distribuídos entre três municípios mato-grossenses e, segundo levantamentos das equipes de fiscalização, concentra cerca de 1.117 pontos de exploração mineral clandestina.
Até poucos meses antes da operação, estimativas das autoridades indicavam que mais de duas mil pessoas permaneciam na área realizando extração ilegal de ouro. O intenso fluxo de trabalhadores, equipamentos e estruturas improvisadas fez com que um dos principais pontos de mineração fosse apelidado pelas equipes de inteligência de “vila”, devido à dimensão alcançada pela ocupação irregular.
Comando Vermelho ampliou atuação dentro do garimpo
De acordo com as investigações conduzidas pela Polícia Federal, a presença do Comando Vermelho começou a ser registrada em 2023. Inicialmente, integrantes da facção ofereciam segurança armada aos responsáveis pela extração ilegal do minério.
Com o passar do tempo, porém, os criminosos assumiram o controle de áreas estratégicas da mineração clandestina. Conforme a PF, o ouro passou a ser utilizado como moeda de troca em negociações ilícitas realizadas com grupos criminosos de países vizinhos.
Ouro seria usado para compra de armas e drogas
Segundo o delegado da Polícia Federal Rodrigo Vitorino, as investigações identificaram que o metal precioso extraído ilegalmente era enviado para nações da fronteira, onde servia como pagamento para aquisição de armamentos e entorpecentes.
Ainda conforme a polícia, essa dinâmica fortaleceu financeiramente a organização criminosa e ampliou sua capacidade de atuação dentro e fora da região da Terra Indígena Sararé.
Operação destrói estruturas utilizadas pelo garimpo ilegal
Durante a ofensiva das forças federais, agentes localizaram uma ampla infraestrutura utilizada pelos criminosos para manter as atividades de mineração.
Entre as estruturas encontradas estavam túneis escavados no subsolo que, segundo a Polícia Federal, serviam tanto para facilitar a extração do ouro quanto para esconder armamentos, munições e permitir rotas de fuga em meio à mata.
As equipes também reuniram imagens que mostram homens armados escoltando máquinas pesadas utilizadas para abrir novas frentes de exploração dentro da terra indígena, evidenciando o grau de organização dos grupos criminosos que atuavam no local.
O balanço da operação aponta a apreensão de mais de 42 mil litros de óleo diesel, 153 quilos de ouro, além da destruição de 33 túneis, aproximadamente quatro toneladas de explosivos, cerca de 200 acampamentos irregulares, mais de 800 motores empregados na atividade clandestina e 31 escavadeiras utilizadas no processo de extração.
Na última quinta-feira, a Polícia Federal também cumpriu mandado de busca e apreensão contra um investigado suspeito de fornecer maquinário e armamento pesado aos integrantes da organização criminosa.
Impactos ambientais do garimpo preocupam especialistas
Além dos efeitos relacionados à criminalidade, a exploração mineral clandestina provoca graves danos ambientais na região. Em uma das áreas conhecidas como Garimpo do 4, a retirada intensa de solo alcançou o lençol freático, alterando significativamente a paisagem local. O Rio Sararé também apresenta sinais de degradação causados pela atividade minerária irregular.
Especialistas alertam que substâncias utilizadas no processo de separação do ouro, como mercúrio e cianeto, permanecem no ambiente por longos períodos e podem comprometer rios, fauna, flora e comunidades humanas durante décadas ou até séculos.
Segundo técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a recuperação completa da vegetação e dos ecossistemas afetados poderá exigir centenas de anos, dependendo da intensidade dos danos registrados em cada área degradada.
Moradores indígenas também relatam mudanças profundas no território. Lideranças afirmam que a destruição ambiental compromete a sobrevivência das comunidades, reduzindo recursos naturais e afetando diretamente o modo de vida tradicional do povo Nambikwara.
Governo anuncia reforço na segurança da região
Como resposta ao avanço da criminalidade, o Governo de Mato Grosso informou que está implantando uma base integrada de segurança em um dos acessos à Terra Indígena Sararé. A estrutura deverá reunir forças estaduais e federais, permitindo maior presença permanente das autoridades na região e fortalecendo as ações de fiscalização e combate ao crime organizado.
O governo estadual também declarou que permanece à disposição para atuar em conjunto com os órgãos federais na proteção da área indígena e no enfrentamento às organizações criminosas que exploram ilegalmente os recursos naturais.

