Quando falamos em Novembro Azul, a atenção costuma se concentrar na prevenção e no diagnóstico precoce do câncer de próstata. Mas existe uma questão que merece espaço nessa conversa: qual é, afinal, a relação entre a testosterona, a saúde hormonal masculina e o desenvolvimento desse tipo de câncer?
Durante décadas, a testosterona foi vista com desconfiança quando o assunto era próstata. A explicação parecia simples: como determinados tumores prostáticos dependem de hormônios masculinos para crescer, acreditava-se que níveis mais elevados de testosterona aumentariam necessariamente o risco de desenvolver a doença.
Hoje, sabemos que essa relação é muito mais complexa. **Embora muitos tumores de próstata sejam sensíveis à ação dos andrógenos, isso não significa que homens com níveis naturalmente mais elevados de testosterona tenham, necessariamente, maior risco de desenvolver a doença.
Pesquisas recentes trouxeram informações importantes. O estudo TRAVERSE, um dos maiores ensaios clínicos sobre reposição de testosterona, não identificou aumento significativo na ocorrência de câncer de próstata entre os homens que receberam o hormônio e aqueles que utilizaram placebo. Entretanto, é importante lembrar que o estudo incluiu homens criteriosamente selecionados, sem sinais de câncer de próstata ou suspeita da doença. Além disso, o período de acompanhamento não foi suficiente para esclarecer completamente os possíveis efeitos da reposição hormonal sobre o risco de câncer a longo prazo. Portanto, os resultados são tranquilizadores, mas não permitem afirmar que a testosterona seja isenta de riscos em todas as situações.
Isso significa que a testosterona está liberada para todos os homens? Absolutamente não.
É fundamental distinguir a produção natural de testosterona, a reposição hormonal indicada para tratar uma deficiência comprovada e o uso indiscriminado de hormônios para ganho muscular, melhora do desempenho físico ou suposto rejuvenescimento. **São situações diferentes, com indicações, doses e riscos distintos. Os resultados de estudos com reposição em doses fisiológicas não podem ser extrapolados para o uso de doses suprafisiológicas, como ocorre frequentemente no uso de anabolizantes.
A testosterona desempenha funções essenciais no organismo masculino, influenciando a libido, a massa muscular, a saúde óssea e a produção de glóbulos vermelhos. Sua redução pode estar associada a sintomas como diminuição do desejo sexual, fadiga e perda de força. No entanto, nem todo cansaço, dificuldade sexual ou alteração de humor significa deficiência hormonal.
Na endocrinologia, o diagnóstico de hipogonadismo exige avaliação clínica e exames laboratoriais realizados em condições adequadas, geralmente com confirmação dos níveis reduzidos de testosterona em duas coletas matinais. **Essas dosagens devem ser realizadas em manhãs distintas, preferencialmente em jejum, utilizando métodos laboratoriais confiáveis. A investigação também deve considerar as possíveis causas da deficiência hormonal, e não apenas o resultado do exame.
Outro ponto importante é que a reposição de testosterona não deve ser iniciada em homens com câncer de próstata ativo. Isso ocorre porque muitos tumores prostáticos são sensíveis à ação dos andrógenos, hormônios masculinos que podem estimular seu crescimento. Já nos homens que tiveram câncer de próstata tratado, a decisão é mais complexa: em situações muito selecionadas, como casos de baixo risco tratados com intenção curativa e sem sinais de recorrência, a reposição pode ser considerada após avaliação multidisciplinar, com participação do urologista e acompanhamento rigoroso.
Aliás, essa relação explica por que determinados tratamentos do câncer de próstata utilizam medicamentos para reduzir ou bloquear a ação da testosterona. Embora essa estratégia seja importante no controle da doença, pode provocar consequências como perda de massa muscular, redução da densidade óssea, aumento da gordura corporal e alterações metabólicas.
É justamente nesse cenário que a endocrinologia tem uma contribuição relevante. O acompanhamento hormonal e metabólico pode ajudar a prevenir e controlar complicações, especialmente em pacientes que necessitam de tratamentos prolongados.
Também precisamos enfrentar a banalização da testosterona. A divulgação de tratamentos hormonais como solução para envelhecimento, falta de disposição ou mudanças na composição corporal tem estimulado uma procura que nem sempre corresponde a uma necessidade médica real.
A reposição hormonal pode trazer benefícios para homens com deficiência comprovada, mas exige indicação precisa, avaliação dos riscos e acompanhamento regular. Esse acompanhamento inclui a avaliação da resposta clínica, dos níveis de testosterona, do hematócrito e da saúde prostática, considerando a idade e os fatores de risco de cada paciente. Não se trata de uma fórmula para recuperar a juventude.
O Novembro Azul é uma oportunidade para ampliar o debate sobre a saúde masculina. Mais do que discutir um único exame ou hormônio, precisamos incentivar os homens a procurar assistência médica, avaliar seus fatores de risco e conversar sobre as possibilidades, os benefícios e as limitações das estratégias de prevenção e diagnóstico precoce do câncer de próstata.
A mensagem que a ciência nos oferece é clara: a testosterona não deve ser tratada automaticamente como vilã, mas tampouco pode ser utilizada sem critérios.
Cuidar da saúde hormonal também é cuidar da saúde masculina. E a melhor decisão continua sendo aquela orientada pela ciência, pela avaliação individualizada e pelo acompanhamento médico.
Mariana Ramos é endocrinologista.

