A fabricante brasileira de pás para turbinas eólicas Aeris protocolou um pedido de recuperação extrajudicial na Justiça de São Paulo para renegociar aproximadamente R$ 1,52 bilhão em dívidas. A iniciativa, apresentada na terça-feira (3), busca reorganizar a situação financeira da companhia, reduzir seu nível de endividamento e garantir a continuidade das atividades industriais, além de preservar empregos e contratos comerciais.
O pedido foi encaminhado à 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, conforme comunicado divulgado pela própria empresa. A proposta já conta com o apoio de credores que representam 42,18% dos créditos considerados para a aprovação do plano.
Aeris busca apoio dos credores para aprovar reestruturação financeira
Para que o plano de recuperação extrajudicial seja homologado pela Justiça, a Aeris precisa ampliar o percentual de adesão dos credores. A companhia estabeleceu o prazo de até 90 dias, a partir da apresentação do pedido, para conseguir o apoio de titulares de mais da metade dos créditos abrangidos pela negociação.
Esse mecanismo permite que empresas com dificuldades financeiras negociem diretamente com seus credores uma proposta de reorganização das obrigações. Após alcançar o percentual legal de adesão, o acordo pode ser submetido à análise e homologação judicial.
No caso da fabricante brasileira, a estratégia envolve mudanças nas condições de pagamento das dívidas e possíveis ajustes na estrutura de capital. A intenção é diminuir a pressão financeira sobre o negócio e criar condições para manter a produção de componentes destinados ao setor de energia eólica.
A Aeris também informou que as operações industriais continuarão funcionando normalmente durante o processo. Segundo a companhia, os contratos e as linhas de fornecimento indispensáveis à fabricação dos equipamentos serão mantidos.
Dívida de R$ 1,52 bilhão não inclui obrigações trabalhistas e tributárias
O valor apresentado no pedido corresponde à posição financeira apurada em 31 de outubro. O montante de R$ 1,52 bilhão reúne compromissos que não possuem garantias reais ou fiduciárias e que não estão relacionados ao fornecimento habitual de produtos e serviços necessários ao funcionamento da empresa.
Algumas categorias de obrigações não fazem parte da negociação. Entre elas estão:
- Dívidas de natureza tributária;
- Créditos trabalhistas;
- Obrigações decorrentes de acidentes de trabalho;
- Outros compromissos que não se enquadram nas condições estabelecidas para o plano.
A proposta de reestruturação poderá contemplar diferentes alternativas para reorganizar o passivo financeiro da fabricante. Entre as possibilidades estão a revisão dos prazos de pagamento, a obtenção de novos financiamentos e eventuais modificações nas garantias oferecidas aos credores.
Entretanto, as condições definitivas ainda não foram estabelecidas. Os detalhes financeiros deverão ser reunidos em uma nova versão do plano, que será discutida com os credores antes de seguir para a homologação judicial.
Justiça suspende cobranças relacionadas às dívidas negociadas
Com a apresentação do pedido, passaram a valer os efeitos de suspensão das execuções referentes aos créditos incluídos no plano, conforme as disposições da Lei de Recuperação e Falências.
Na prática, a medida oferece à Aeris um período de proteção contra determinadas ações de cobrança enquanto a empresa tenta construir um acordo com seus credores financeiros.
O ajuizamento da recuperação extrajudicial recebeu aprovação do conselho de administração. Apesar disso, a decisão ainda deverá ser submetida à ratificação dos acionistas em uma assembleia geral extraordinária, cuja convocação será realizada pela companhia.
Aeris já havia iniciado negociações para reduzir o endividamento
O novo pedido representa mais uma etapa dos esforços da fabricante para enfrentar suas dificuldades financeiras. Nos meses anteriores, a empresa já havia adotado medidas judiciais e extrajudiciais para tentar aliviar a pressão exercida pelas obrigações financeiras.
Em agosto, a Aeris recorreu à Justiça paulista solicitando uma medida cautelar que permitisse interromper, por até 60 dias, execuções e outros procedimentos de cobrança relacionados aos débitos em negociação com seus principais credores.
Na mesma ocasião, a companhia também iniciou um procedimento de mediação para buscar alternativas de entendimento com as instituições financeiras envolvidas.
A situação atual também sucede uma iniciativa de renegociação anunciada em maio de 2025. Naquele período, a empresa informou ter conseguido renegociar aproximadamente 90% de seu endividamento, em uma tentativa de reorganizar os compromissos financeiros e melhorar sua capacidade de pagamento.
Apesar das medidas anteriores, a necessidade de apresentar uma nova proposta demonstra que a companhia continua enfrentando dificuldades para equilibrar sua estrutura financeira.
Crise da Aeris acompanha dificuldades da indústria eólica brasileira
Os problemas financeiros da fabricante também estão relacionados ao cenário enfrentado pelo setor de energia eólica no Brasil. A indústria nacional passou por um período de redução nas encomendas de equipamentos, levando empresas do segmento a rever seus níveis de produção e, em alguns casos, suspender temporariamente atividades industriais.
Outro fator que afeta o mercado é o chamado curtailment, termo utilizado para identificar os cortes na geração de energia que impedem determinadas usinas de produzir toda a eletricidade que teriam capacidade de entregar.
Esse fenômeno está associado, entre outros fatores, a limitações na transmissão e a situações de desequilíbrio entre a oferta e a capacidade de escoamento da energia produzida.
Com menos demanda por novos equipamentos e incertezas sobre o ritmo de expansão do mercado, fabricantes de componentes para aerogeradores enfrentam dificuldades para manter suas operações em níveis considerados adequados.
No caso da Aeris, os resultados financeiros recentes também evidenciam esse cenário. No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 152 milhões, resultado que reforça os desafios enfrentados pela empresa em meio à retração do mercado.

