*Sêmia Mauad/ Opinião MT
O Tribunal do Júri no Fórum de Cuiabá entra no terceiro dia consecutivo nesta quinta-feira, dia 1 de outubro, após a sessão da última quarta-feira, dia 30 de setembro, avançar com os interrogatórios dos três réus acusados do assassinato do advogado Roberto Zampieri.
Os trabalhos de ontem foram encerrados antes que tivessem início a fase de debates entre o Ministério Público e as defesas, embate que promete estender o julgamento com longas horas de argumentação, réplicas e tréplicas antes que o Conselho de Sentença se reúna para responder aos quesitos de condenação ou absolvição, culminando na sentença a ser proferida pelo juiz presidente do júri.
Iniciado na última terça-feira, dia 29 de setembro, com a oitiva de testemunhas, o julgamento expôs no segundo dia as teses e as versões conflitantes de Antônio Gomes da Silva (executor confesso), Hedilerson Fialho Martins Barbosa (acusado de intermediar o crime e fornecer a arma) e do coronel reformado do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas (apontado na articulação e financiamento).
A CONFISSÃO SEM ARREPENDIMENTO DE ANTÔNIO GOMES
Antônio Gomes da Silva, réu confesso, ele não apenas admitiu ter matado Zampieri em 5 de dezembro de 2023, mas adotou uma postura agressiva e convicta, afirmando que agiu por conta própria e motivado por uma suposta revolta contra a corrupção no Judiciário.
Segundo Antônio, ele próprio investigou a vítima após tomar conhecimento de uma história envolvendo a compra de terras e disparou contra o advogado. Sem demonstrar remorso, foi categórico ao afirmar perante os jurados:
“Matei mesmo e, se fosse preciso matar, mataria de novo porque ele realmente é uma desgraça”, declarou.
A DEFESA DE HEDILERSON: “O ANTÔNIO ME TRAIU”
Por sua vez, Hedilerson Fialho Martins Barbosa negou veementemente qualquer participação no homicídio e afirmou ter sido traído por Antônio. Conforme relato, os dois se conheceram em um clube de tiro em Minas Gerais, onde Hedilerson trabalhava como instrutor. Antônio o teria convidado para ficar hospedado em Cuiabá sob o pretexto de participar de uma prova de tiros, dizendo que a hospedagem já estava paga.
Hedilerson confirmou que trouxe consigo uma pistola Taurus para a competição, mas garantiu que deixou a arma devidamente guardada dentro do quarto de hotel, sem autorização para transportá-la e sem levá-la quando saiu para jantar.
“O Antônio mentiu pra mim, me traiu. Não acreditei que ele tinha usado minha arma. Traiu minha confiança. Ele era uma pessoa, até então, idônea”, desabafou.
O réu relatou as dificuldades financeiras enfrentadas pela família e o impacto da prisão em sua vida, afirmando ter atuado como mototaxista por aplicativo e lamentando que seu filho de cinco anos ainda não saiba o motivo da ausência dele:
“Desde o dia que entrei aqui eu não tive o direito de falar com minha família”.
O CORONEL CAÇADINI SE DIZ “BODE EXPIATÓRIO” E NEGA VÍNCULO
O coronel reformado do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas também negou qualquer envolvimento na morte de Zampieri, afirmando ser alvo de uma grande injustiça e insinuando estar sendo usado como “bode expiatório”. O oficial sustentou que não tinha motivos para financiar a morte de um advogado com quem nunca teve qualquer relação.

“Tenho uma carreira inteira no Exército. Estou aqui cheio de comorbidade, cheio de problemas. Estou sendo injustiçado e altamente lesado. Para mim, alguma coisa está acontecendo, que seja compra ou ameaça, para colocar meu nome nesse processo. Eu tentei fazer uma delação premiada, mas foi barrado”, pontuou.
Questionado sobre repasses financeiros e sobre a contratação de Antônio por R$ 40 mil, sendo metade no início e o restante depois, bem como sobre um depósito de R$ 60 mil, Caçadini justificou que o dinheiro era proveniente da venda de objetos pessoais e que pretendia comprar uma caminhonete em Cuiabá. Sobre menções a Aníbal Manoel Laurindo, descrito como parceiro na Frente Ampla Patriótica (FAP), o coronel o definiu como um “grande conservador”.
Acerca de evidências extraídas dO aparelho celular, que continha fotografias da fachada do escritório de Zampieri, fotos da vítima e até mesmo a certidão de óbito, Caçadini esquivou-se.
“Pode ter certeza que tem coisas no meu celular que não sei de onde vieram”.
A TESE DA ACUSAÇÃO: EXECUÇÃO PLANEJADA
Para o Ministério Público, as alegações das defesas caem por terra diante do robusto conjunto probatório colhido durante as investigações. A acusação sustenta que o assassinato de Roberto Zampieri, morto aos 56 anos quando saía de seu escritório no bairro Bosque da Saúde, foi uma execução planejada e encomendada em meio a disputas por propriedades rurais e conflitos fundiários em Mato Grosso, cuja atuação profissional da vítima feria interesses de terceiros.
O MP aponta uma clara divisão de tarefas:
Antônio como o executor direto, Hedilerson na retaguarda logística e fornecimento da arma, e Caçadini na articulação financeira.
Mensagens recuperadas do inquérito, como os registros “Coronel, missão cumprida” e “Iniciando plano de retirada”, reforçam para os promotores a existência de uma engrenagem criminosa coordenada.

