*Sêmia Mauad/ Opinião MT
O segundo dia de julgamento do Tribunal do Júri no Fórum de Cuiabá, realizado nesta quarta-feira, dia 30 de setembro, foi marcado por um dos momentos mais tensos do processo: o interrogatório de Antônio Gomes da Silva, réu confesso pela morte do advogado Roberto Zampieri, executado em dezembro de 2023. Durante seu depoimento, Antônio assumiu a autoria dos disparos, mas tentou justificar o crime alegando revolta contra o que chamou de “corrupção no Judiciário”.
Ao prestar depoimento perante o Conselho de Sentença, Antônio Gomes da Silva não negou que efetuou os tiros que mataram Zampieri, mas surpreendeu ao tentar dar contornos ideológicos à execução. Com falas fortes, o réu declarou:
“Um corrupto eu mandei para o inferno. Cometi esse pecado, esse crime. É verdade. Se esse homem não tivesse entrado na corrupção, ele estava vivo e eu estava solto”.
Em outro trecho do interrogatório, o executor confesso afirmou que, ao ser abordado por policiais após o crime e informado de que havia assassinado “alguém importante” em Cuiabá, questionou os agentes se a vítima era inocente. Segundo ele, ao receber a negativa dos policiais, sentiu o que chamou de “uma certa felicidade”.
Antônio tentou sustentar que veio a Mato Grosso motivado por uma busca pessoal por “justiça”, distanciando-se, na narrativa, da figura de um pistoleiro contratado, alegando que teria se revoltado ao acompanhar notícias sobre conflitos agrários e despejos de famílias no campo em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. De acordo com o réu, cenas de reintegração de posse o teriam sensibilizado profundamente:
“Tinha condições de colocar eles em outro lugar para morar, mas jogaram os gados na estrada”, pontuou, justificando que passou a acreditar que “a corrupção está tomando conta do nosso país”.
O réu alegou que, após se indignar com situações políticas e judiciais, mencionando inclusive o que chamou de “desmantelo” em tribunais, teria recebido fotografias e informações de que um homem estaria em Cuiabá “lesando muita gente no Judiciário”.
Conforme a versão apresentada em plenário, interlocutores o teriam provocado com a frase.
“Temos um cara lá em Cuiabá, Mato Grosso, sabemos que você não gosta de corrupto”. Antônio argumentou ainda que percebeu que a fazenda negociada por Zampieri seria a mesma propriedade que ele próprio teria tido interesse em visitar no passado.
O réu em alguns momentos, chegou a chorar ao mencionar familiares.
Além de Antônio, o dia de sabatina no plenário presidido pelo juiz José Mauro Nagib Jorge incluiu também os interrogatórios dos outros réus: Hedilerson Fialho Martins Barbosa (apontado na intermediação e fornecimento da arma) e do coronel reformado do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas (acusado de articulação e financiamento).
A linha de interrogatório de Antônio alinha-se à estratégia adotada por sua defesa desde a abertura dos trabalhos, que busca focar nos bastidores e nas motivações reais do crime, enquanto os demais réus, Hedilerson e Caçadini, também apresentam defesas técnicas perante os jurados.

