O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi consultado pelo escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, antes da formalização de um contrato milionário com o Banco Master. A informação foi confirmada pela própria banca após reportagem do Estadão apontar que o nome associado ao perfil utilizado para uma alteração no documento aparece como “Ministro Alexandre de Moraes”.
Moraes foi consultado pelo setor de compliance
De acordo com a explicação apresentada pelo escritório, a consulta ao ministro ocorreu por iniciativa do setor de compliance da banca. A justificativa foi a dimensão e as características do contrato que estava sendo negociado com o Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro.
Segundo a nota divulgada pelo escritório, Moraes teria sido procurado exclusivamente na condição de marido da sócia responsável pela direção da banca. O objetivo, ainda conforme o documento, era verificar se existia algum impedimento jurídico para que o escritório assumisse a representação do banco.
A consulta teria considerado, entre outros pontos, a eventual existência de processos no STF sob relatoria de Moraes ou situações nas quais o ministro pudesse participar de julgamentos relacionados aos interesses do possível cliente.
A banca declarou que não identificou impedimento legal para a contratação e afirmou que o ministro nunca teria julgado processo envolvendo o Banco Master.
Metadados apontam alteração em documento
A discussão sobre a participação de Moraes ganhou relevância depois que uma reportagem do Estadão analisou os metadados de um arquivo encontrado no celular de Daniel Vorcaro.
Segundo as informações divulgadas, o contrato passou por uma alteração às 23h04 do dia 15 de janeiro de 2024. O arquivo teria sido inicialmente elaborado pelo administrador do escritório, Guilherme de Toledo Benazzi.
Na etapa posterior, os dados técnicos do documento indicaram que uma edição foi realizada utilizando um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
A alteração ocorreu antes da assinatura definitiva do acordo entre o banco e o escritório de advocacia.
Como ocorreu a negociação do contrato
A primeira versão da minuta contratual havia sido encaminhada por Viviane Barci de Moraes a Daniel Vorcaro em 11 de janeiro de 2024.
Quatro dias depois, o banqueiro retornou o arquivo ao escritório com uma modificação. Na mensagem enviada junto ao documento, Vorcaro informou que havia acrescentado apenas uma cláusula e pediu que a banca avaliasse se a alteração estava adequada.
Ainda na noite de 15 de janeiro, os registros técnicos do arquivo apontaram uma nova modificação, desta vez vinculada ao perfil que aparece identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
Posteriormente, Viviane encaminhou ao banqueiro a versão que seria utilizada para a formalização do acordo. A assinatura ocorreu em 23 de janeiro de 2024.
Contrato previa pagamento milionário
O acordo firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia estabelecia uma remuneração mensal líquida de R$ 3 milhões pelo período de 36 meses.
Considerando os tributos previstos no próprio contrato, o valor mensal bruto chegava a R$ 3.646.529,77. Dessa forma, o montante total previsto no documento alcançava R$ 131.274.351,72.
Os pagamentos tiveram início em fevereiro de 2024.
Informações encaminhadas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, no Senado Federal, indicam que foram realizados 22 pagamentos ao escritório entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025.
No período, os repasses totalizaram aproximadamente R$ 80,2 milhões, segundo os documentos apresentados à comissão.
Pagamentos foram interrompidos após prisão de Vorcaro
Os pagamentos deixaram de ser realizados depois da prisão de Daniel Vorcaro, ocorrida em novembro de 2025, durante a primeira fase da Operação Compliance Zero.
A operação passou a investigar suspeitas relacionadas ao sistema financeiro e envolveu o Banco Master e seus negócios.
O encerramento dos repasses ocorreu antes que o valor integral originalmente previsto no contrato fosse alcançado.
Escritório afirma que serviços foram prestados
Na manifestação divulgada à imprensa, a banca de Viviane Barci de Moraes sustentou que o contrato foi firmado após a análise interna sobre possíveis impedimentos jurídicos.
O escritório também afirmou que os serviços contratados foram efetivamente realizados e que, no momento da contratação, não havia previsão de atuação perante o STF.
A explicação da banca foi apresentada após a divulgação dos dados dos metadados, que colocaram o nome de Moraes entre as informações associadas às alterações realizadas no documento.
O que os documentos indicam
Os registros apresentados no caso mostram uma sequência de acontecimentos envolvendo a elaboração, modificação e assinatura do contrato. A minuta foi inicialmente produzida pelo escritório, encaminhada ao Banco Master, devolvida com uma alteração e posteriormente modificada novamente antes da assinatura.
O ponto que passou a ser questionado publicamente foi a identificação do perfil “Ministro Alexandre de Moraes” nos metadados de uma das versões do arquivo.
O escritório confirmou que Moraes foi consultado durante o processo, mas afirmou que a consulta ocorreu para verificar a existência de eventuais impedimentos legais para a contratação.

