Se você descobriu a gravidez recentemente e tem a sensação de que o seu estômago decidiu viver em uma montanha-russa, saiba de uma coisa logo de cara: você não está sozinha, e o que você está sentindo é real, físico e totalmente válido.
O primeiro trimestre da gestação é um turbilhão. De um lado, a alegria e a expectativa pelo novo membro da família; do outro, uma enxurrada de hormônios que transforma o corpo feminino da noite para o dia. E, para grande parte das futuras mamães, o cartão de visitas desse período é o temido enjoo matinal, que infelizmente, muitas vezes decide durar o dia inteiro.
Como nutricionista especialista em Nutrição Materno-infantil, Saúde da Mulher e Reprodução Humana, eu acompanho de perto o impacto físico e emocional que esses sintomas causam. Por isso, quero te explicar o porquê disso acontecer, te dar dicas práticas para aliviar esse mal-estar e, acima de tudo, te acolher nesse momento em que o seu corpo está realizando a tarefa mais complexa do universo: gerar uma vida.
POR QUE OS ENJOOS ACONTECEM (ESPECIALMENTE NO 1º TRIMESTRE)?
A ciência ainda estuda todos os mecanismos exatos, mas já sabemos que o enjoo gestacional é o resultado de uma verdadeira sinfonia hormonal e metabólica. Entre a 6ª e a 12ª semana de gestação, os principais fatores que provocam essa reviravolta no seu estômago são:
-Primeiro, a explosão do HCG (Gonadotrofina Coriônica Humana): Esse é o hormônio da gravidez, aquele que positivou o seu teste de farmácia. Ele sobe vertiginosamente no primeiro trimestre, e picos elevados de HCG estão diretamente associados às náuseas. Curiosamente, do ponto de vista evolutivo, alguns cientistas acreditam que o enjoo era uma forma de o corpo “proteger” o bebê em formação, rejeitando alimentos que pudessem conter toxinas ou bactérias em um momento em que o sistema imunológico da mãe está modulado.
-Progesterona em alta: A progesterona relaxa a musculatura lisa do corpo para acomodar o crescimento do útero. O “problema” é que o seu estômago e o seu esôfago também são formados por músculos liso. Com o relaxamento, a digestão fica mais lenta, os ácidos estomacais sobem com mais facilidade e a sensação de estômago cheio e embrulhado se instala.
-Sensibilidade olfativa aguçada: O olfato da gestante fica hiperativo (outra herança hormonal). Cheiros que antes passavam despercebidos, como o café coando, o óleo da fritura ou até o perfume do parceiro, passam a funcionar como gatilhos instantâneos para o reflexo de vômito.
-Queda nos níveis de açúcar no sangue: Ficar muito tempo com o estômago vazio gera hipoglicemia leve, o que piora drasticamente a náusea.
ESTRATÉGIAS NUTRICIONAIS E PRÁTICAS PARA AMENIZAR OS ENJOOS
Embora os enjoos façam parte da fisiologia da maioria das gestações iniciais, você não precisa apenas “esperar passar” sofrendo. Pequenos ajustes na rotina alimentar ajudam a acalmar o sistema digestivo:
-Coma antes de levantar da cama: Deixe alguns biscoitos água e sal, torradas integrais ou castanhas no criado-mudo. Coloque algo no estômago antes de colocar os pés no chão. Isso evita que o pico de ácido estomacal em jejum acione o enjôo matinal.
-Fracione as refeições: O estômago da gestante no primeiro trimestre não lida bem com volumes grandes. Em vez de 3 grandes refeições, faça de 5 a 6 pequenas refeições ao longo do dia. Comer pouquinho e com mais frequência mantém a glicemia estável.
-Separe líquidos e sólidos: Evite beber grandes copos de água ou suco durante as refeições principais. O excesso de líquido estica a parede do estômago e facilita a náusea. Beba pequenos goles de água nos intervalos entre as refeições.
-Aposte no poder do Gengibre: Se não houver contraindicação médica, o gengibre é um santo remédio natural. Ele atua bloqueando os receptores de náusea no cérebro. Você pode consumir em chás mornos (não fervendo), raspas na água gelada ou balas de gengibre.
-Alimentos frios ou em temperatura ambiente: Comida muito quente exala vapores e cheiros fortes que disparam o enjoo. Pratos frios, saladas de frutas, iogurtes naturais ou sopas mornas costumam ser muito mais bem tolerados.
-Ouça o seu corpo (e não se sinta culpada): Se o único alimento que desce neste momento for uma batata cozida, um pão simples ou uma fruta cítrica, coma isso. A fase de restrição do primeiro trimestre é passageira. O foco agora é nutrição possível, e não perfeição nutricional.
UMA PALAVRA DE ACOLHIMENTO PRA VOCÊ, MAMÃE
Existe um mito social muito cruel de que a gravidez é um mar de rosas onde a mulher flutua em um estado de pura felicidade poética. A realidade clínica e emocional é bem diferente.
Ninguém te conta o quanto é exaustivo gerar um bebê enquanto você se sente enjoada o dia todo, com uma fadiga profunda, às vezes tendo que trabalhar, cuidar da casa e fingir que está tudo bem para o mundo exterior. É normal se sentir frustrada. É normal chorar quando a comida que você preparou te dá repulsa. É normal desejar o fim desse trimestre.
Lembre-se: o seu corpo está fazendo um trabalho monumental. Cada célula do seu bebê está sendo construída agora, e o seu organismo está se remodelando inteirinho para isso. Essa fase difícil vai passar. Por volta da 14ª a 16ª semana, os níveis hormonais tendem a estabilizar e a energia costuma retornar.
Até lá, seja gentil com você mesma. Descanse sempre que puder, diga “não” aos compromissos que exigem demais da sua energia e procure acompanhamento profissional humanizado para atravessar essa fase com segurança e saúde. Você é mais forte do que imagina, e logo, logo, essa tempestade dará lugar à fase mais linda dessa jornada.
A IMPORTÂNCIA NO ACOMPANHAMENTO NUTRICIONAL E DA SUPLEMENTAÇÃO NO PRIMEIRO TRIMESTRE
Embora os enjoos façam parte da rotina de muitas gestantes, você não precisa passar por isso sozinha e nem no escuro. É justamente nesse momento de tantas restrições alimentares que o acompanhamento nutricional especializado faz toda a diferença.
Como o seu apetite diminui e muitos alimentos são rejeitados, o risco de carências nutricionais para você e para o bebê aumenta. Uma suplementação adequada e individualizada, estrategicamente planejada para o seu perfil e tolerância, entra como uma grande aliada para garantir que nutrientes essenciais, como vitaminas do complexo B, fundamentais para conter as náuseas, além de minerais, continuem suprindo as demandas do desenvolvimento fetal, mesmo quando a sua ingestão de comida sólida estiver reduzida.
O papel da nutrição materno-infantil aqui não é te cobrar perfeição, mas sim encontrar caminhos seguros e possíveis para nutrir o seu corpo sem sofrimento.
E um alerta importante: se os enjoos forem tão intensos a ponto de você não conseguir reter nenhum líquido ou alimento, apresentando fraqueza extrema e perda de peso, procure imediatamente o seu obstetra. A hiperêmese gravídica é uma condição médica real que exige intervenção e suporte clínico especializado.
*Sêmia Mauad, nutricionista e especialista em Nutrição Materno-infantil, Saúde da Mulher e Reprodução Humana
Instagram: @semiamauad

