A Polícia Federal encontrou, durante uma investigação, mensagens trocadas pela lobista Roberta Luchsinger nas quais o nome de Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aparece relacionado à articulação de uma reunião entre o governador do Maranhão, Carlos Brandão, e integrantes do Palácio do Planalto. Segundo informações divulgadas pelo Estadão, o conteúdo faz parte de uma apuração sobre possíveis relações de influência envolvendo a lobista, Lulinha e empresários que mantinham negócios com órgãos públicos.
Mensagens citam atuação de Lulinha em reunião no Planalto
De acordo com a investigação da Polícia Federal, uma das mensagens analisadas foi enviada por Roberta Luchsinger a Lulinha em 22 de maio de 2024. No áudio, a lobista comunicava que Carlos Brandão teria uma reunião no Palácio do Planalto e mencionava que o presidente Lula teria sinalizado o prosseguimento de uma obra de interesse do governador.
A mensagem também fazia referência a Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que ocupava naquele período o cargo de chefe de gabinete do presidente da República. Registros oficiais da agenda de Marcola apontam que ele se encontrou com Carlos Brandão naquele mesmo dia, em uma reunião classificada como executiva.
Segundo a transcrição feita pela PF, Roberta informou a Lulinha que havia comunicado ao governador que a agenda havia sido viabilizada. A lobista também afirmou que pretendia conversar com Brandão sobre outros assuntos.
Na sequência, conforme os investigadores, Lulinha teria sugerido que a conversa com o governador fosse direcionada para esses outros temas.
A existência da reunião entre Brandão e integrantes do governo federal consta nos registros oficiais. No entanto, a investigação busca esclarecer o contexto das mensagens e se houve alguma atuação irregular na intermediação dos encontros ou de interesses empresariais.
Lulinha aparece em investigação sobre atuação de lobista
A apuração da Polícia Federal também examina a atuação de Roberta Luchsinger em negócios envolvendo a empresa 3Structure, pertencente ao empresário Cleber Ribas.
Segundo os investigadores, a lobista teria trabalhado para defender os interesses do empresário junto a diferentes órgãos públicos. Entre os contratos identificados estão negócios firmados pela 3Structure com estruturas do governo do Maranhão e com o Ministério do Desenvolvimento Social.
A PF apurou que a empresa celebrou contratos que somavam R$ 5,8 milhões com o governo maranhense em 2024, envolvendo o Porto de Itaqui e a Secretaria de Fazenda do Estado. Ainda segundo a investigação, Roberta recebeu ao menos R$ 2,5 milhões de Ribas entre março de 2024 e dezembro de 2025.
Além dos negócios no Maranhão, a 3Structure firmou dois contratos com o Ministério do Desenvolvimento Social. Um deles, assinado em dezembro de 2023, tinha valor de R$ 14,4 milhões. Outro, celebrado em abril de 2024, alcançou R$ 19,2 milhões.
Os investigadores também identificaram indícios de que Roberta teria buscado intermediar os interesses do empresário junto ao governo federal.
Obras anunciadas no Maranhão após reunião
Cerca de um mês depois do encontro entre Carlos Brandão e integrantes do governo federal, o presidente Lula esteve em São Luís. Na ocasião, em 21 de junho de 2024, foram anunciados investimentos estimados em R$ 59 bilhões para o Maranhão dentro do Novo PAC.
Entre os projetos divulgados estavam medidas relacionadas ao Porto do Itaqui, incluindo a renovação da concessão e a construção de um novo berço portuário. Também foi anunciada a implantação de um novo corredor de transporte na Avenida Litorânea, uma das principais vias da capital maranhense.
A investigação cita a proximidade temporal entre a reunião registrada no Palácio do Planalto e os anúncios de investimentos, mas a apuração busca justamente estabelecer se houve alguma relação entre os fatos.
Relações com autoridades do Maranhão
As mensagens analisadas pela Polícia Federal também fazem referência a integrantes da estrutura política e administrativa do Maranhão.
Em conversas com Cleber Ribas, Roberta teria mencionado que o então presidente da Empresa Maranhense de Administração Portuária, Gilberto Lins e Neto, havia demonstrado uma avaliação positiva sobre o empresário e sinalizado o andamento de determinadas tratativas.
A PF associou as referências feitas nas mensagens a Gilberto Lins, que deixou a presidência da Emap em outubro de 2024 após decisão do Supremo Tribunal Federal.
Roberta Luchsinger e Lulinha também mantinham relações pessoais com o deputado federal Fabio Macedo, do Podemos-MA, apontado como aliado político de Carlos Brandão. A esposa do parlamentar, Lorena Macedo, ocupava naquele período a função de subsecretária de Representação Institucional do Maranhão em Brasília.
Defesas contestam acusações e questionam divulgação da investigação
Carlos Brandão negou manter relação com Roberta Luchsinger e afirmou que seus compromissos oficiais não dependem da atuação de terceiros. O governador também destacou a parceria entre os governos estadual e federal para a execução de obras no Maranhão.
A defesa de Lulinha contestou a divulgação de informações da investigação e classificou os vazamentos como seletivos. Segundo os advogados, a exposição do nome do filho do presidente teria como objetivo produzir efeitos políticos, sem que existam elementos que comprovem sua participação em irregularidades.
A defesa de Cleber Ribas também negou as relações apontadas na investigação. Em manifestação ao Estadão, afirmou que o empresário e a 3Structure não mantiveram contrato com a Dataprev relacionado ao objeto do inquérito e negou qualquer relação comercial com Fábio Luís Lula da Silva.
O advogado Marco Aurélio Carvalho, que representa Lulinha, voltou a criticar a divulgação das informações e afirmou que não foram apresentadas provas capazes de incriminá-lo.
Governo do Maranhão e Planalto são procurados
O governo do Maranhão declarou que não possui ingerência sobre empresas privadas. Já o Hospital São Luís informou que não divulga publicamente informações comerciais individualizadas relacionadas a contratos privados com fornecedores e prestadores de serviços.
O Palácio do Planalto também foi procurado para comentar as informações relacionadas à investigação, mas não havia apresentado resposta até a publicação da reportagem original.
As defesas de Marcola, Roberta Luchsinger e de outro investigado citado na apuração também foram procuradas, mas não se manifestaram.

