A Polícia Federal concluiu a investigação sobre o acidente aéreo da Voepass ocorrido em agosto de 2024, em Vinhedo (SP), que provocou a morte de 62 pessoas. O relatório, divulgado nesta quinta-feira, resultou no indiciamento de 16 funcionários e ex-funcionários da companhia pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo. O documento também descreve uma série de falhas operacionais, problemas de manutenção e possíveis omissões que, segundo a investigação, contribuíram para a tragédia.
Voepass: investigação resulta no indiciamento de 16 pessoas
De acordo com a Polícia Federal, entre os indiciados estão pilotos, despachantes operacionais de voo, mecânicos, gerentes, diretores e o então presidente da companhia aérea. A investigação concluiu que diferentes setores da empresa tiveram participação em um cenário caracterizado por sucessivas falhas relacionadas à manutenção das aeronaves e aos procedimentos operacionais.
Entre os nomes citados estão os comandantes Edson Serra Martins e Luciano Alves de Macedo, além de profissionais responsáveis pelo despacho operacional, manutenção, engenharia, segurança operacional e direção da empresa.
Também foi indiciado o então diretor-presidente da companhia, José Luiz Felício Filho. Conforme o relatório, ele possuía responsabilidade direta para interromper as falhas identificadas nos processos internos relacionados à manutenção e à operação das aeronaves, mas, segundo a PF, isso não ocorreu.
Relação dos indiciados
A Polícia Federal informou que o indiciamento alcança profissionais de diferentes áreas da Voepass, incluindo pilotos, despachantes operacionais de voo, mecânicos, gerentes e diretores da companhia. Confira a relação completa dos investigados:
- Edson Serra Martins — piloto e comandante do voo PTB 2293;
- Luciano Alves de Macedo — piloto e comandante do voo PTB 2204;
- Oderlino de Campos Figueiredo — despachante operacional de voo (DOV) dos voos PTB 2293 e PTB 2204;
- John Major Viana — despachante operacional de voo (DOV) do voo PTB 2282;
- Marcos Hiroyuki Sato — despachante operacional de voo (DOV) responsável pelo voo PTB 2283;
- Alex de Souza Leandro — mecânico responsável pela liberação da aeronave e pelo Daily Check da aeronave PS-VPB durante o pernoite;
- William Schmidt Agatz — gerente do Centro de Controle Operacional (CCO);
- Juliano Flores Pacheco — gerente do Centro de Controle de Manutenção (MCC – Maintenance Control Center);
- Raphael Limongi de Figueiredo — chefe do Centro de Controle Operacional (CCO), também identificado nos depoimentos como piloto-chefe e chefe de tripulação;
- Marcel Sarquis Moura — diretor de Operações;
- Tiago Passucci Morani — gerente de Engenharia e inspetor-chefe;
- Carlos Alberto Costa — diretor de Manutenção;
- Eric Consoli — diretor Técnico;
- Rafael Gimenez Rodrigues — piloto-chefe e responsável pelo Programa de Monitoramento de Dados de Voo (FOQA);
- David da Costa Faria Neto — diretor de Segurança Operacional;
- José Luiz Felício Filho — diretor-presidente da Voepass.
Segundo a Polícia Federal, todos os investigados foram indiciados pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo. As conclusões fazem parte do relatório que apura as circunstâncias da queda da aeronave em Vinhedo (SP), acidente que deixou 62 mortos em agosto de 2024.
Relatório aponta problemas recorrentes na manutenção
O documento elaborado pela PF destaca que a aeronave apresentava histórico de falhas relacionadas ao sistema pneumático de degelo, equipamento fundamental para impedir o acúmulo de gelo nas asas e demais superfícies durante o voo.
Conforme a investigação, a causa do acidente foi resultado da combinação entre o acúmulo de gelo, a inoperância do sistema de degelo e a ausência da adoção, no momento adequado, dos procedimentos previstos para esse tipo de situação.
O relatório ainda afirma que diversas ocorrências semelhantes já haviam sido registradas em voos anteriores, mas essas falhas não foram oficialmente comunicadas, permitindo que o problema permanecesse sem solução definitiva.
Caixa-preta revelou sucessivos alertas
As gravações da cabine analisadas pelos investigadores mostram que, no voo realizado imediatamente antes do acidente, o sistema responsável pelo degelo apresentou repetidos alertas.
Segundo a Polícia Federal, durante o trajeto entre Guarulhos e Cascavel, o aviso de falha no sistema foi acionado oito vezes. Para tentar eliminar os alertas, a tripulação realizou diversos reinícios do equipamento, mas a irregularidade persistiu.
Os diálogos registrados também revelam comentários dos pilotos sobre a presença intensa de gelo durante a operação. Após o pouso, um dos profissionais chegou a afirmar que a tripulação havia conseguido concluir o voo em segurança apesar das dificuldades enfrentadas.
Para os investigadores, essas conversas demonstram que os problemas já eram conhecidos antes do acidente e evidenciam um padrão contínuo de falhas operacionais.
Comparação com “Fusquinha” apareceu nas gravações
Durante o voo que terminou na queda da aeronave em Vinhedo, os pilotos voltaram a comentar sobre os problemas enfrentados.
Em determinado momento, ao perceber novos alertas relacionados ao sistema de degelo, um dos integrantes da cabine comparou o avião ao personagem Herbie, o famoso Fusca protagonista de filmes, sugerindo que a aeronave parecia apresentar falhas constantes.
Pouco depois, a conversa registra novas reclamações sobre o funcionamento do equipamento enquanto os pilotos observavam o aumento da formação de gelo.
Na sequência, começaram a surgir diversos avisos automáticos emitidos pelos sistemas da aeronave, incluindo alertas de degradação de desempenho, recomendação para aumento de velocidade e, posteriormente, o aviso de estol, situação caracterizada pela perda de sustentação da aeronave.
O último sinal registrado pela caixa-preta foi o alerta de proximidade com o solo.
PF encaminha relatório para análise sobre atuação da Anac
Além das conclusões envolvendo a companhia aérea, a Polícia Federal informou que encaminhou cópia do relatório à Corregedoria Regional da PF em São Paulo.
O objetivo é avaliar a eventual existência de crimes como prevaricação ou corrupção passiva privilegiada por parte de integrantes da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), caso sejam identificadas irregularidades durante o exercício das atividades de fiscalização.
Anteriormente, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão vinculado à Força Aérea Brasileira, já havia apontado fragilidades na supervisão exercida pela Anac. Segundo o órgão, informações relevantes para a gestão de risco não teriam sido devidamente utilizadas, permitindo a continuidade de práticas operacionais consideradas inadequadas dentro da empresa.

