*Sêmia Mauad/ Opinião MT
A Polícia Civil de Mato Grosso obteve acesso a vídeos cruciais que flagraram a movimentação de veículos retirando as cargas de cestas básicas que deveriam abastecer famílias carentes em Barra do Garças, no interior do estado. As imagens integram o robusto conjunto de provas da Operação Mesa Vazia, deflagrada na manhã desta sexta-feira, dia 3 de julho.
Ao todo, estima-se que 13 mil cestas básicas e kits de limpeza tenham sido criminosamente desviados, gerando um prejuízo de R$ 1,9 milhão aos cofres públicos.
Os donativos faziam parte do programa SER Família Solidário, vinculado à Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania (Setasc).
A MECÂNICA DO DESVIO: LOGÍSTICA CENTRALIZADA E ROTAS PRIVADAS
De acordo com os elementos colhidos na investigação, os insumos saíam dos centros de distribuição oficiais localizados em Cuiabá e eram transportados até Barra do Garças.
No entanto, em vez de seguirem o protocolo legal de entrega em prédios de órgãos públicos, entidades assistenciais parceiras ou diretamente para os beneficiários previamente cadastrados no programa social, o destino final era adulterado. Os veículos descarregavam as toneladas de alimentos em imóveis particulares, chácaras, sedes de associações de bairro e outros locais privados. Desses pontos clandestinos, era realizada a redistribuição irregular da mercadoria.
A Polícia Civil identificou que a fraude operava por meio de dois fluxos logísticos bem distintos, onde uma parcela dos insumos tramitava dentro das normas, servindo como uma “cortina de fumaça” institucional. E outro caminho na qual funcionava totalmente à margem do controle fiscal do Estado e sem qualquer prestação de contas. Para alimentar essa engrenagem oculta, o grupo utilizava documentos altamente suspeitos, além de contar com a conivência de entidades e representantes comunitários destituídos de legitimidade formal.
Para mapear e comprovar o funcionamento desse sistema paralelo, a equipe investigativa cruzou depoimentos de motoristas de caminhão, vereadores, representantes de associações de moradores e testemunhas, além de analisar minuciosamente relatórios policiais, comprovantes de pagamento, notas de transporte e trocas de mensagens interceptadas.
MEGAOPERAÇÃO CUMPRE 47 ORDENS JUDICIAIS
Para desmantelar o esquema, uma força-tarefa composta por 90 policiais civis das Delegacias Regionais de Barra do Garças e de Água Boa foi às ruas nesta sexta-feira para cumprir 47 ordens judiciais. As ações contam com o suporte técnico da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), da Setasc e da Secretaria Municipal de Assistência Social.
Entre os mandados de busca e apreensão, quebras de sigilos fiscal e bancário e pedidos de afastamento temporário de agentes públicos de suas funções, um dos principais alvos das buscas foi a sede da Câmara Municipal de Barra do Garças.
O objetivo central nesta fase é confiscar mídias digitais, celulares, computadores e documentos administrativos para comprovar em definitivo a destinação real dada às milhares de cestas básicas.
Os investigados e envolvidos na fraude podem responder judicialmente por peculato-desvio, associação criminosa, falsidade ideológica e uso de documento falso.
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