A prisão do vereador Senival Pereira de Moura (PT), da Câmara Municipal de São Paulo, marcou uma nova fase da Operação Última Parada, realizada nesta quarta-feira (25) pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP). O parlamentar é investigado por suposta participação em um esquema de lavagem de dinheiro que, segundo as autoridades, teria beneficiado integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). As acusações fazem parte da linha de investigação conduzida pelos órgãos responsáveis e ainda serão analisadas pela Justiça, garantindo o direito ao contraditório e à ampla defesa.
Vereador é apontado como figura central nas investigações
A nova etapa da Operação Última Parada foi coordenada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Conforme os investigadores, a empresa Transunião Transportes S.A. teria sido utilizada para ocultar patrimônio e movimentar recursos financeiros atribuídos ao PCC.
De acordo com a apuração, Senival Moura aparece como um dos principais investigados no suposto esquema. As autoridades sustentam que pagamentos de elevados valores e movimentações financeiras consideradas informais dependeriam de sua autorização.
Durante a investigação, mensagens extraídas de aparelhos celulares apreendidos indicariam que o parlamentar era mencionado por diferentes apelidos, entre eles “presidente”, “véio”, “velhinho” e “vereador”, referência que, segundo os investigadores, reforçaria sua posição dentro da estrutura investigada.
Trajetória política e atuação no transporte coletivo
Atualmente em seu sexto mandato na Câmara Municipal de São Paulo, Senival Moura ocupa funções importantes na estrutura do Legislativo paulistano. Entre elas estão o cargo de primeiro-secretário da Mesa Diretora e a presidência da Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica.
Segundo o Ministério Público, sua ligação com o setor de transporte coletivo remonta ao início da regularização do sistema de transporte alternativo na capital paulista, processo ocorrido nos primeiros anos da década de 2000.
As investigações também apontam que a atuação do parlamentar no transporte de passageiros teria começado ainda na década de 1970, quando operava linhas informais utilizando veículos Kombi entre os bairros de Guaianases e Itaim Paulista.
Empresa de transporte voltou ao centro das apurações
A Transunião Transportes S.A. já havia sido alvo de outras investigações nos últimos anos. Em 2022, a empresa foi mencionada durante a apuração da morte de Adauto Soares Jorge, ex-diretor financeiro da companhia.
Na ocasião, a Polícia Civil cumpriu mandados de prisão contra dois suspeitos e apreendeu diversos ônibus pertencentes à empresa. Naquele momento, Senival Moura declarou ser inocente das acusações e afirmou permanecer à disposição da Justiça.
Investigação relaciona assassinato a suposto esquema financeiro
Segundo o Ministério Público, as atuais investigações tiveram origem no homicídio de Adauto Soares Jorge, morto em março de 2020 na Zona Leste de São Paulo.
Os investigadores afirmam que Adauto exerceria a função de representante de confiança de Senival na administração financeira da empresa de transporte. Ainda conforme os autos, a Transunião teria sido utilizada para movimentar recursos destinados à lavagem de dinheiro da organização criminosa.
A investigação também sustenta que Adauto teria realizado desvios de recursos da empresa para abastecer um suposto caixa dois relacionado à campanha eleitoral de reeleição de Senival em 2020.
De acordo com o Ministério Público, a descoberta dessas movimentações teria levado integrantes da facção criminosa a promoverem um chamado “debate”, mecanismo interno utilizado pela organização para decidir punições. A conclusão apresentada pelos investigadores é que esse procedimento teria resultado na ordem para a execução de Adauto.
Vereador aparece em planilhas e relatórios financeiros
Além das mensagens encontradas em celulares apreendidos, planilhas analisadas durante a investigação também colocam o parlamentar no centro das apurações.
Segundo os documentos, Senival seria apontado como “cooperado oficial” de pelo menos 13 veículos pertencentes à frota da Transunião. Embora os ônibus estivessem registrados em nome da empresa ou de terceiros, os investigadores afirmam que os rendimentos obtidos com esses veículos seriam destinados ao parlamentar.
As autoridades também investigam a suposta utilização de familiares e pessoas próximas para ocultação de patrimônio. Entre os nomes citados nos autos estão a esposa, os filhos, um irmão, um assessor parlamentar e um motorista apontado como integrante do círculo de confiança do investigado.
Relatórios indicam movimentações milionárias
Relatórios produzidos por órgãos de inteligência financeira apontam que Senival Moura movimentou aproximadamente R$ 4,39 milhões entre os anos de 2019 e 2022.
Segundo a investigação, haveria incompatibilidade superior a R$ 2,4 milhões entre as movimentações bancárias identificadas e os rendimentos oficialmente declarados pelo parlamentar.
Os documentos também fazem referência à existência de imóveis ligados ao investigado, incluindo um apartamento localizado na Vila Madalena, em São Paulo, e uma propriedade rural situada no município de Extrema, em Minas Gerais.
Ministério Público apresenta versão sobre atuação do PCC
Os documentos produzidos pelo Ministério Público afirmam que, após a identificação dos supostos desvios financeiros, tanto Adauto quanto Senival teriam sido submetidos ao chamado “tribunal do crime”, mecanismo atribuído ao PCC para julgamento interno de seus integrantes.
Segundo a linha investigativa apresentada pelas autoridades, o vereador teria escapado da execução em razão de sua influência política e da capacidade financeira para ressarcir parte dos valores que teriam sido desviados. Ainda conforme os investigadores, ele teria concordado com a execução de Adauto.
Essas conclusões integram exclusivamente a investigação conduzida pelo Ministério Público e pela Polícia Civil, não representando decisão definitiva da Justiça.

