*Sêmia Mauad/ Opinião MT
Uma investigação conduzida pela Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) revelou bastidores de dentro de uma clínica terapêutica em Cuiabá. O paciente Alessandro Sidinei Braga, de 38 anos, que sofria de esquizofrenia, foi morto no último domingo, dia 31 de maio, após ser jogado ao chão com as mãos amarradas e sofrer um golpe “mata-leão”.
O delegado Michael Paes confirmou que a instituição utilizava um “quarto de punição” para castigar internos que cometessem erros. O cômodo ficava trancado pelo lado de fora durante toda a noite e a chave permanecia com o plantonista.
“Nós identificamos que lá estava dormindo um rapaz que não tem esquizofrenia. Estava lá, segundo ele, porque tinha furtado uma bolacha. Depois, o gerente falou que não, que ele ficou punido lá porque tomou álcool e está em tratamento por causa disso. Mas, independente disso, você já verifica muitas irregularidades do ponto de vista administrativo deste estabelecimento”, destacou o delegado Michael Paes.
O gerente do local admitiu às autoridades que as pessoas que passavam pelo quarto eram, em sua maioria, esquizofrênicas.
CONTENÇÃO VIOLENTA NA ALA PSIQUIÁTRICA
A apuração da DHPP apontou que, na noite do crime, Alessandro entrou em um surto psicótico. O suspeito do crime, o plantonista Odiley Rodrigues de Souza, de 42 anos, era o único funcionário responsável pela segurança de uma ala que abrigava, ao todo, 42 internos.
Para conter o paciente, Odiley aplicou um golpe conhecido como “mata-leão”. A polícia agora investiga se o funcionário utilizou apenas os braços ou se fez o uso de uma corda para realizar a imobilização. Após a ação violenta, Alessandro teve os braços amarrados para trás e foi deixado trancado no quarto de punição junto com outros internos. O funcionário não retornou ao cômodo para verificar o estado de saúde da vítima, que foi encontrada morta na manhã seguinte.
FARSA DO SUICÍIO E COAÇÃO DE TESTEMUNHAS
Inicialmente, a administração da clínica acionou o Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (Ciosp) comunicando o caso como se fosse um suicídio por enforcamento. Ao chegarem ao local, investigadores e peritos criminais encontraram o corpo de Alessandro com marcas de corda no pescoço. Odiley chegou a sustentar a versão de que o paciente havia tirado a própria vida utilizando a janela do quarto.
Contudo, a equipe pericial identificou imediatamente diversas inconsistências entre os vestígios físicos e o relato do funcionário. Diante das evidências técnicas, Odiley confessou que alterou a cena do crime para despistar as autoridades. Ele admitiu também que coagiu um dos internos da clínica para confirmar a versão falsa de suicídio. Ouvido pela polícia, o paciente confirmou a tentativa de fraude processual e revelou que aceitou mentir por medo de sofrer represálias dentro da instituição.
PLANTONISTA TEM PRISÃO CONVERTIDA EM PREVENTIVA
Em audiência de custódia, o juiz Moacir Rogério Tortato, da 12ª Vara Criminal de Cuiabá, converteu em preventiva a prisão em flagrante de Odiley Rodrigues de Souza. Ele responderá pelos crimes de homicídio e fraude processual.
Ao fundamentar a decisão, o magistrado destacou que a liberdade do acusado ofereceria um risco real à instrução criminal devido aos indícios contundentes de modificação do local do crime e ao fato de que as testemunhas manifestaram explícito temor em relação ao autuado.
O inquérito policial segue em andamento na DHPP. O delegado Michael Paes aguarda a conclusão dos laudos oficiais de necropsia, de análise do local de crime e de traumatologia forense para concluir o caso e remetê-lo ao Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT).
ESTABELECIMENTO FUNCIONAVA SUPOSTAMENTE DE FORMA CLANDESTINA
Além das agressões e métodos punitivos, o Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT) revelou que a clínica terapêutica funcionava de maneira totalmente irregular. O estabelecimento, que atendia pacientes em tratamento de dependência química e pessoas com esquizofrenia, não possui registro de funcionamento junto ao órgão e não consta em seu banco de dados.
O CRM-MT informou que vai oficiar a Polícia Civil de Mato Grosso para obter dados complementares do espaço, como o CNPJ, para aprofundar a análise e avaliar as providências legais a serem adotadas contra a instituição. A autarquia ressaltou que seu sistema é público e orientou que familiares consultem o site oficial do conselho antes de internar parentes.

