*Sêmia Mauad/ Opinião MT
Após três dias de um julgamento marcado por debates intensos, depoimentos polêmicos e sucessivos bate-bocas entre acusação e defesa, o Tribunal do Júri do Fórum de Cuiabá proferiu, na noite da última quinta-feira, dia 14 de maio, a sentença do investigador da Polícia Civil, Mário Wilson Vieira da Silva Gonçalves.
O réu foi condenado pela morte do policial militar Thiago de Souza Ruiz, ocorrida em abril de 2023. No entanto, em uma decisão que surpreendeu parte dos presentes, os jurados acataram a tese de homicídio culposo (quando não há intenção de matar), desclassificando a acusação original de homicídio doloso qualificado.

Com a desclassificação, o juiz Marcos Faleiros fixou a pena em dois anos de prisão em regime aberto. A pena privativa de liberdade foi substituída por duas restritivas de direitos. Na sentença, o magistrado também revogou as medidas cautelares impostas ao investigador, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica. O promotor de Justiça Vinícius Gahyva Martins já interpôs recurso contra a decisão.
O CRIME: O CONFLITO NA CONVENIÊNCIA
O assassinato aconteceu no dia 27 de abril de 2023, em uma conveniência de um posto de combustível em frente à Praça 8 de Abril, no centro da capital.
Em depoimento no plenário, Mário Wilson alegou legítima defesa. Segundo ele, ao chegar ao local para comprar cigarros, encontrou o policial civil Walfredo Raimundo Adorno Mourão Junior acompanhado da vítima. Mário afirmou ter duvidado da identidade de Thiago.
Imagens de segurança mostram que, após uma abordagem inicial, os envolvidos sentaram-se à mesa. Em dado momento, Thiago levantou a camiseta para mostrar uma cicatriz de cirurgia, deixando visível um revólver na cintura. A partir daí, iniciou-se uma luta corporal.
“Eu atirei para não morrer. Ele estava me enforcando pelas costas”, declarou o investigador, descrevendo o momento em que, caído no chão, efetuou os disparos enquanto sofria um estrangulamento.
ACUSAÇÃO: DEZ DISPAROS E “PERFIL AGRESSIVO”
O Ministério Público Estadual (MPE) rebateu a tese de legítima defesa focando na desproporcionalidade da ação. O promotor Vinícius Gahyva enfatizou que Mário Wilson efetuou dez disparos contra o PM, continuando a atirar mesmo após a vítima tentar correr para se afastar.
O MPE trouxe o depoimento de uma funcionária do posto, identificada como D.C.N. Segundo ela, momentos antes da briga, o investigador teria dito em tom desafiador.
“Eu sou policial! Em uma situação de confronto, eu passaria por cima de qualquer um! Eu não consideraria amizade”. A testemunha relatou ter visto Mário com duas armas nas mãos antes de ouvir a sequência de tiros.
ESTRATÉGIA DA DEFESA: QUESTIONAMENTOS SOBRE A VITIMA
A defesa, liderada pelo advogado Cláudio Dalledone, focou em descredibilizar a conduta da vítima e a legalidade da arma. Um sargento ouvido como técnico afirmou que o termo de cautela da arma de Thiago só foi localizado dois dias após o crime e teria sido “produzido” retroativamente.
Os advogados levantaram a suspeita de que Thiago estaria sob efeito de drogas no dia do crime, citando um histórico de depressão e uso de cocaína após o divórcio e a morte do pai. Também mencionaram investigações da Corregedoria sobre o uso de entorpecentes por parte de Walfredo, o policial civil que acompanhava a vítima.
BATE-BOCAS E TENSÃO NO PLENÁRIO
O julgamento foi marcado por uma relação hostil entre Dalledone e o promotor Gahyva. Houve trocas de ironias e ofensas desde o primeiro dia.
Dalledone chamou o promotor de “seu fã e comentarista favorito” após críticas à sua forma de trabalhar.
O promotor acusou a defesa de tentar tumultuar o processo para causar o afastamento do juiz, mencionando que “o senhor já conseguiu o afastamento da juíza [anterior], agora está ameaçando o juiz-presidente”.
No terceiro dia, quando o promotor disse “senta, senta” para os defensores, Dalledone reagiu. “Você não venha tratar assim advogado. Coloque-se no seu lugar! Tu é muito folgado!”. Gahyva rebateu afirmando que a defesa criava situações para abandonar o plenário e anular o julgamento.

