*Sêmia Mauad/ Opinião MT
Em uma noite onde o tecido serviu de tela para a memória e a passarela tornou-se um palco de denúncia, o projeto “Depois do Silêncio” realizou, no dia 18 de abril, um desfile performático que uniu moda, arte e conscientização. O evento buscou resgatar as histórias de mulheres cujas vozes foram brutalmente silenciadas, transformando marcas de violência em um manifesto de esperança e acolhimento para as famílias enlutadas.
A iniciativa, que nasceu da indignação diante de uma semana sangrenta para as mulheres em Mato Grosso, reuniu cerca de 70 voluntários, incluindo estilistas e artistas de estados como Goiás e São Paulo, além de uma comitiva internacional vinda da África do Sul.
O projeto focou em resgatar a identidade dessas mulheres, seus sonhos, profissões e o que gostavam de fazer, para que a sociedade conhecesse quem elas eram, combatendo a tendência de o agressor receber mais visibilidade do que as próprias vítimas. Através de peças ressignificadas e obras de arte, o “Depois do Silêncio” transformou o luto em um grito por justiça e prevenção.
TRIBUTO A RAQUEL CATTANI: QUEIJO E PAIXÃO PELO CAMPO
Raquel Cattani é uma das mulheres homenageadas pelo projeto. Filha do deputado estadual Gilberto Cattani, morta em um crime que chocou o estado. O visual foi concebido pela designer de moda Quelita Medeiros, formada pelo IFSC em 2025, que utilizou a técnica de upcycling para contar a história de Raquel.

“A moda pode ser uma ferramenta de transformação social. Me limitei a materiais como o jeans e as franjas, que trazem a estética western e a paixão de Raquel por cavalos. Na camisa, temos detalhes nas mangas que lembram os ‘furinhos’ de um queijo, fazendo jus à queijaria e aos títulos que ela recebeu. Na saia, o tecido leve recorda a feminilidade que Raquel foi e sempre será”, detalhou Quelita.

A designer enfatizou que cada detalhe foi pensado para ser um “grito silencioso”.
“A arte chega onde uma frase não alcança. Através dessas criações, trazemos luz a quem teve a voz silenciada. É entender que a moda não é apenas sobre roupas, é sobre pessoas”.
O impacto da perda de Raquel Cattani não se deu apenas pela morte prematura, mas pela frieza e a motivação torpe que envolveram o crime. Conforme Paulo Machado, chefe de gabinete e amigo de longa data da família Cattani, a jovem foi vítima de uma emboscada covarde. As investigações revelaram que o executor foi o irmão do ex-marido de Raquel, agindo sob um pretexto de vingança. O ex-companheiro não aceitava o fim do relacionamento.
Raquel foi morta na própria residência, onde recebeu 34 perfurações por arma branca, um detalhe que evidencia o ódio e a crueldade dos envolvidos.
“Vivi junto com ele e com a família a grande perda de Raquel. A partir de então, o deputado passou a se focar ainda mais em ações em prol dessas famílias que não conseguem ter, muitas vezes, o apoio que aqueles que cometem o feminicídio têm”, afirmou Paulo.
RESSIGNIFICANDO HISTÓRIAS ATRAVÉS DA SUSTENTABILIDADE
A diretora do projeto, Quéren Takahoschi, que também atua na organização missionária Jocum Pantanal, explicou que o “Depois do Silêncio” nasceu há nove meses, motivado por uma sequência de casos de violência doméstica no estado.
“O que me motivou foi uma tristeza e indignação. Entendi que precisava usar o que eu já tinha: a arte e a moda”, revelou Quéren.
Um dos pilares inegociáveis do projeto foi a sustentabilidade. Todas as peças foram criadas a partir de roupas de brechó, utilizando upcycling e customização cuidadosa. Além disso, a pesquisa envolveu entrevistas profundas com as famílias para que os sonhos das vítimas fossem costurados às peças.

Um exemplo marcante foi o look em homenagem a Ana Paula Ribeiro, assassinada pelo ex-companheiro em 2021. Quem deu vida a peça foi a própria Quéren.
“A filha dela contou sobre o sonho que Ana Paula tinha de conhecer os Lençóis Maranhenses. Eu quis trazer esse sonho através da peça, retratando a água, as dunas e as diferenças de cores”, explicou a diretora.
VOZES QUE NÃO SERÃO ESQUECIDAS
Além de Raquel e Ana Paula, outras mulheres foram lembradas na passarela.
Cleci Calvi Cardoso e Miliane Calvi Cardoso: Mãe e filha assassinadas em Sorriso (2023) por um trabalhador de uma obra vizinha. O crime, que vitimou outras duas filhas de Cleci, foi representado em looks que buscavam trazer consolo à família.


Em novembro de 2023, na cidade de Sorriso, a mãe Cleci Calvi Cardoso (46 anos) e as três filhas dela, Miliane (19 anos), Manuela (13 anos) e Melissa (10 anos), foram brutalmente assassinadas dentro da própria residência. O crime foi cometido por um homem que trabalhava em uma obra localizada exatamente ao lado da casa das vítimas. Aproveitando-se da proximidade e do conhecimento da rotina da casa, ele invadiu o local para cometer os assassinatos. No desfile “Depois do Silêncio”, a memória de Cleci e também da filha mais velha, Miliane Calvi Cardoso, foi resgatada através da moda. O projeto buscou inverter a lógica comum de dar visibilidade ao agressor, focando inteiramente em quem eram essas mulheres antes de terem suas vidas interrompidas. Os looks apresentados foram criados com o intuito de trazer consolo à família e amigos, transformando uma história marcada pela violência em um tributo à vida e à dignidade das vítimas.
Domingas Cecília da Silva Oliveira: Morta em 2020 aos 49 anos, enquanto ia para o trabalho. Ela foi perseguida e atacada brutalmente em uma manhã comum, uma rotina interrompida que agora é preservada pela memória do projeto.

UM APELO A SOCIEDADE
O projeto “Depois do Silêncio” não termina na passarela. Ele se propõe a ser uma ação contínua de conscientização. Como bem definiu a designer Quelita Medeiros.
“Mulheres ajudam mulheres. Se você é da arte, mostre através disso; se é advogada, lute pela justiça; se é jornalista, denuncie; se está na política, crie leis. Cada um deve fazer sua parte para que sejamos mais fortes”.

