*Sêmia Mauad/ Opinião MT
O julgamento do caso Raquel Cattani entrou em uma nova fase na manhã desta quinta-feira, dia 22 de janeiro, com o depoimento do delegado Edmundo Félix de Barros Filho. Em um relato detalhado iniciado às 10h22, a autoridade policial expôs o ambiente de violência doméstica invisível em que a vítima vivia e a dinâmica técnica que desmascarou a organização do crime entre os irmãos Romero e Rodrigo Xavier Mengarde.
Um dos pontos mais sensíveis do depoimento ocorreu às 10h30. O delegado revelou que, embora Raquel não tivesse registrado boletins de ocorrência, o histórico de violência era amplamente conhecido por amigos e familiares.
Romero submetia Raquel a humilhações, incluindo chacotas sobre um problema auditivo da vítima.

O delegado ainda disse em depoimento que, baseado no que ouviu das testemunhas, o réu alternava crises de fúria e ameaças de suicídio com períodos de aparente carinho, configurando o clássico “ciclo da violência”. O objetivo era manter o controle psicológico sobre a produtora rural.
A REAPROXIMAÇÃO ENTRE OS IRMÃOS
A investigação descartou qualquer motivação autônoma de Rodrigo para o assassinato. Segundo o delegado às 10h54, Rodrigo e Raquel não tinham convívio nem conflitos. A motivação do executor seria o “resgate do convívio familiar”.
Romero e Rodrigo estavam afastados há anos. A reaproximação ocorreu de forma repentina pouco antes do crime. A mãe dos réus relatou que Rodrigo estava “feliz” com as visitas de Romero.

O delegado destacou que o histórico de Rodrigo era de crimes patrimoniais (furtos). A escalada para um homicídio brutal com requintes de crueldade não seria compatível com o perfil dele, a menos que houvesse o comando intelectual e a promessa de vínculo afetivo/financeiro por parte de Romero.
PROVAS TÉCNICAS
Às 10h53, o delegado Edmundo esclareceu pontos fundamentais sobre a conectividade da internet na região do crime. Como no Assentamento Pontal do Marape não há torres de celular, a prova chave veio do uso do Wi-Fi. A perícia identificou o acesso ao IP do único provedor da localidade no período do crime, colocando o executor exatamente na cena do homicídio. Imagens de Lucas do Rio Verde mostraram Rodrigo em uma rota incompatível com um trajeto direto, sugerindo que ele passou para buscar Romero antes do crime. Mensagens recuperadas falavam em “roupas separadas” e horários de saída, confirmando o planejamento prévio.
Um detalhe que ajudou a fechar o cerco contra Rodrigo foi a localização de um perfume subtraído da casa de Raquel. Durante diligências na casa de Rodrigo, com autorização da esposa dele, a polícia encontrou o objeto. Pressionado por versões contraditórias, Rodrigo acabou indicando o local onde havia escondido a motocicleta da vítima.
A investigação validou o depoimento da mãe da melhor amiga de Raquel, que presenciou cenas de extrema violência. Além de xingamentos públicos, a testemunha relatou um episódio em que Romero teria apontado uma arma de fogo diretamente para o rosto de Raquel.
Esse clima de terror foi reforçado às 10h57, quando o delegado citou outra amiga da vítima, residente em Lucas do Rio Verde. Segundo os autos, Raquel teria confidenciado a essa amiga: “Um dia, o Romero ainda vai me matar”. O delegado relembrou que, no dia da descoberta do corpo, a vizinha do assentamento não teve dúvidas e já gritava aos policiais que o responsável era o ex-marido.
Às 10h58, o delegado detalhou um momento específico de tensão relatado por essa amiga de Lucas do Rio Verde. Durante um passeio, enquanto Romero estava embriagado e havia descido do carro, Raquel abriu o porta-luvas e mostrou à amiga que ele estava armado.
A frieza de Romero voltou a ser pauta às 11h05. O delegado destacou que o réu apresentou uma versão previamente estruturada aos investigadores. Durante os interrogatórios, ele não demonstrou desespero, manteve-se calmo e respondia apenas o que havia planejado, de forma controlada e objetiva.
Além disso, a perícia digital revelou uma manipulação suspeita nos aparelhos. Às 11h08, foi detalhado que Romero manteve mensagens antigas de anos atrás com diversas pessoas, mas apagou deliberadamente as mensagens recentes, próximas à data do crime. O delegado também mencionou a existência de registros fotográficos considerados “desconexos” no aparelho de Romero, que estão sendo usados para entender a cronologia do planejamento do homicídio.
Às 11h10, o depoimento do delegado Edmundo Félix de Barros Filho trouxe à tona novos traços da personalidade de Romero Xavier Mengarde, reforçando a imagem de um homem de temperamento agressivo e sem empatia.
Segundo o delegado, tanto as oitivas formais quanto os relatos informais colhidos durante a investigação foram unânimes em descrever Romero como uma pessoa “fria, grosseira e extremamente ignorante”. Esses relatos foram recorrentes entre vizinhos e conhecidos da família.
Um detalhe que chamou a atenção da equipe policial foi a forma como o comportamento de Romero se manifestava em diferentes esferas. Testemunhas relataram que o réu demonstrava a mesma postura ríspida e cruel no trato com animais.
Às 11h14, a defesa de Rodrigo Xavier Mengarde, conduzida pelo defensor público Guilherme Ribeiro Rigon, iniciou a fase de questionamentos ao delegado Edmundo Félix de Barros Filho. O embate focou na robustez das evidências que colocam os irmãos na cena do crime e na dinâmica da prisão.
O defensor questionou a eficácia da quebra de sigilo do celular de Rodrigo. O delegado foi enfático ao responder que, embora as mensagens não tenham sido integralmente recuperadas no aparelho do executor (estando presentes apenas no celular de Romero), a conexão automática via Wi-Fi no Assentamento Pontal do Marape foi a prova técnica irrefutável da presença de Rodrigo no local no momento do assassinato.
Um ponto crucial do depoimento surgiu quando a defesa indagou sobre as impressões digitais encontradas na residência. Seria comum encontrar digitais de Romero, já que ele era o ex-marido e frequentava a casa. O delegado esclareceu que, enquanto as digitais internas eram esperadas, o que selou a investigação foi a localização de uma impressão digital na parte externa da janela do quarto. Esse vestígio confirmou o ponto de arrombamento e a entrada forçada do executor, invalidando a tese de uma visita casual.
O delegado relatou ainda os detalhes da prisão de Romero Xavier. Ao ser informado dos direitos e de que seria conduzido à delegacia, Romero manteve a postura controlada que exibiu durante todo o processo.
Às 11h20, pouco antes do encerramento da primeira etapa do julgamento, o delegado Edmundo Félix de Barros Filho revelou um detalhe sobre o comportamento de Romero Xavier Mengarde logo após o crime, no dia 19 de julho.
Segundo o delegado, Romero gravou um vídeo e enviou para um grupo da família. Na gravação, ele aparecia dando parabéns ao filho e chorando copiosamente, mesmo tratando-se de um momento de celebração. Para os investigadores, a cena causou estranhamento. A comemoração do aniversário estava programada para ocorrer normalmente com toda a família.
O delegado reforçou que, enquanto Raquel era assassinada no assentamento, Romero mantinha os filhos sob seus cuidados, o que, para a acusação, serviu como parte de seu plano para tentar garantir um álibi.
Às 11h23, após concluir os esclarecimentos sobre a dinâmica entre os irmãos, o delegado Edmundo Félix foi dispensado. A juíza Ana Helena Alves Porcel Ronkoski suspendeu a sessão do Tribunal do Júri para o intervalo de almoço.

