*Sêmia Mauad/ Opinião MT
O julgamento dos irmãos Romero e Rodrigo Xavier Mengarde, acusados pelo assassinato da produtora rural Raquel Cattani, avançou na manhã desta quinta-feira, dia 22 de janeiro, com o depoimento crucial do delegado Guilherme Pompeo Pimenta Negri. Responsável pelas investigações, o delegado apresentou ao Conselho de Sentença a reconstrução minuciosa do crime, expondo a frieza dos réus e a tentativa de enganar as autoridades.

De acordo com o depoimento iniciado às 08h49, a investigação concluiu que Rodrigo Xavier Mengarde invadiu a residência de Raquel, no Assentamento Pontal do Marape, após arrombar uma janela nos fundos. Ele permaneceu escondido dentro da casa aguardando a chegada da vítima.

Um detalhe impactante revelado pelo delegado às 09h12 é que, ao entrar em casa, Raquel percebeu algo estranho devido a um “forte cheiro” vindo do invasor. Enquanto ela procurava a origem do odor e se dirigia ao quarto, foi surpreendida por Rodrigo, que desferiu diversos golpes de faca. A perícia identificou inúmeras lesões de defesa nos braços e antebraços de Raquel, indicando que ela lutou pela vida.

O delegado explicou que a cena do crime foi cuidadosamente manipulada para parecer um latrocínio (roubo seguido de morte). Rodrigo revirou apenas o quarto da vítima e deixou uma televisão do lado de fora da casa, com uma marca de bota, para simular uma invasão de terceiros.
Enquanto a execução ocorria, o ex-marido de Raquel e suposto mentor do crime, Romero Xavier, trabalhava na construção de um álibi.
Romero passou por três casas de prostituição em Tapurah (MT), garantindo que fosse visto por funcionários e registrado por câmeras de segurança.
Apesar do esforço, a Polícia Civil utilizou provas técnicas e digitais para desmascarar a farsa. Imagens registraram o veículo de Romero saindo de Tapurah em direção ao assentamento, e a análise de 155 depoimentos ajudou a ligar os pontos da trama.
Às 09h20, o delegado detalhou o uso das Estações Rádio-Base (ERBs). O sinal do celular de Rodrigo permitiu que a polícia mapeasse todo o seu trajeto.
Rodrigo fugiu com a motocicleta da vítima em alta velocidade, usando uma camiseta rosa.
Câmeras e registros de telefonia mostraram a circulação do réu por diversas cidades da região, mesmo após ele tentar ocultar a placa do veículo.
FRIEZA E AUSÊNCIA DE LUTO POR PARTE DO EX-MARIDO DE RAQUEL CATTANI
O delegado descreveu Romero como uma pessoa extremamente “astuta, calculista e fria”. Segundo o depoimento, durante os interrogatórios iniciais, o réu demonstrava um comportamento “melindroso”, com respostas milimetricamente pensadas e demoradas, agindo de forma “esperta e malandra” para tentar desviar as suspeitas.

Um dos pontos que mais chamou a atenção da equipe de investigação foi a total ausência de reação emocional. O delegado enfatizou que, mesmo diante da morte brutal da mãe dos filhos dele, Romero não demonstrou qualquer sinal de tristeza, abalo ou inconformismo, mantendo uma postura de indiferença que destoava completamente da gravidade da situação.
COMPORTAMENTO OBSESSIVO E CONTROLE
Às 09h42, novos detalhes sobre a relação abusiva entre Romero e Raquel foram revelados. A investigação identificou um padrão de perseguição e controle exercido pelo réu. Testemunhas relataram que, poucas semanas antes de ser assassinada, Raquel foi surpreendida por Romero no sítio dos pais dela durante a noite, de forma inesperada.
O depoimento reforçou que Raquel viveu anos sob intensa pressão psicológica. O comportamento de Romero foi classificado como obsessivo, marcado por vigilância constante e um interesse controlador sobre os passos da produtora rural, o que teria culminado no planejamento do crime após a separação do casal.
Às 09h44, o depoimento do delegado Guilherme Pompeo Pimenta Negri trouxe novos elementos sobre o clima de medo que cercava a vida de Raquel Cattani antes do crime. Respondendo aos questionamentos da promotora de Justiça Andreia Monte Alegre Bezerra de Menezes, o delegado detalhou depoimentos de pessoas próximas à vítima, incluindo uma vizinha e confidente que residia no assentamento Pontal do Marape.
Segundo a autoridade policial, essa testemunha demonstrou convicção imediata sobre a autoria do crime. Assim que soube da morte da produtora, a vizinha apontou prontamente Romero Xavier Mengarde como o responsável, chegando a proferir xingamentos contra ele.
“SE ALGO ACONTECER COMIGO, FOI ELE”, TERIA DITO RAQUEL A UMA AMIGA SEGUNDO O DELEGADO
Um dos momentos mais impactantes da manhã ocorreu às 09h46, quando a promotora questionou o delegado sobre uma frase dita por Raquel a uma amiga dias antes de ser assassinada.
O delegado confirmou que consta nos autos o relato de que Raquel teria dito: “Se acontecer alguma coisa comigo, foi ele, mas Deus não vai deixar”.
PLANEJAMENTO DO HOMICÍDIO
Às 09h52, o delegado Guilherme Pompeo Pimenta Negri trouxe um dado estratégico sobre o planejamento do homicídio. Em resposta aos questionamentos, ele confirmou que Romero Xavier Mengarde tinha pleno conhecimento de que Raquel Cattani viajaria no dia seguinte ao crime.
A produtora rural, premiada por sua produção de queijos, participaria de uma feira do setor. Essa informação era de conhecimento de familiares e pessoas próximas, incluindo o ex-marido.
Na avaliação da autoridade policial, o fato de Raquel estar sozinha na residência naquela noite, justamente na véspera da viagem, não foi coincidência. O delegado destacou que essa situação representou uma “janela de oportunidade” para os criminosos.
A sessão segue no Fórum de Nova Mutum com a oitiva do delegado, sendo acompanhada de perto por familiares de Raquel, incluindo o deputado estadual Gilberto Cattani (PL).

