*Sêmia Mauad/ Opinião MT
Novos desdobramentos das investigações da Polícia Civil de Mato Grosso revelam a engenharia financeira utilizada pelo núcleo familiar de Angélica Saraiva de Sá, a Angeliquinha, apontada como uma das principais lideranças de facção criminosa no Extremo Norte do estado.
O delegado titular da Delegacia Especializada de Repressão a Entorpecentes e da Delegacia Especializada de Repressão a Crimes Organizados (Draco), Victor Hugo Caetano de Freitas, detalhou que apenas a filha de Angeliquinha, uma jovem de 20 anos, movimentou quase R$ 20 milhões em um período de dois anos sem possuir renda formal compatível.
“A filha dela, uma menina de 20 anos, com uma renda inexistente, movimentou R$ 20 milhões na conta dela”, destacou o delegado Victor Hugo.
A jovem identificada é Kauany Beatriz de Sá Silva, de 20 anos, alvo das investigações decorrentes da Operação Showdown, deflagrada pela Polícia Civil em março deste ano. O levantamento pericial e fiscal demonstrou que o núcleo familiar ligado a Angeliquinha movimentou montantes milionários, superando a marca de R$ 20 milhões em um intervalo de um ano e sete meses por meio de artifícios de lavagem de dinheiro.
De acordo com a polícia, o esquema utilizava empresas de fachada e comércios locais para mascarar a origem ilícita dos capitais. Entre os estabelecimentos fechados durante a operação estão duas unidades da Kauany Shoes Boutique e o estúdio de estética Essenza Beauty, ambos situados em Alta Floresta. A investigação apontou ainda o uso de plataformas de jogos de azar online para dar aparência lícita a valores oriundos do crime.
Apesar de ostentarem nas redes sociais uma rotina de alto padrão, com direito a veículos de luxo, imóveis e viagens internacionais, o casal Kauany Beatriz e o marido, Guilherme Henrique Laureth da Silva, não possuíam atividades econômicas legais capazes de justificar o patrimônio.
Kauany chegou a ser presa durante a Operação Showdown, mas teve a prisão preventiva convertida em domiciliar por ser gestante e mãe de uma criança menor de 12 anos, ficando sob monitoramento de tornozeleira eletrônica e com o passaporte suspenso. Segundo a corporação, os familiares de Angeliquinha não atuavam diretamente em crimes violentos, mas compunham o braço de suporte logístico, financeiro e de lavagem de capitais da facção.
O cerco ao núcleo familiar ganhou força máxima após a captura da própria matriarca. Angeliquinha foi presa na última terça-feira, dia 22 de setembro, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, após permanecer mais de um ano foragida da Justiça mato-grossense.
Ela havia fugido da Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá, em agosto de 2025. Condenada a penas somadas que ultrapassam 260 anos de prisão, Angeliquinha é apontada pela Polícia Civil como a mandante ou articuladora de cerca de 80% dos homicídios praticados pela facção em Alta Floresta e municípios vizinhos, além de comandar o tráfico de drogas, a circulação de armas de fogo e esquemas de extorsão em garimpos da região.

