O reajuste de 0,37% anunciado para o piso salarial dos professores em 2026 reacendeu o debate sobre a valorização do magistério no Brasil. Divulgado em edição extra do Diário Oficial da União, o índice passou a ser questionado por entidades representativas da categoria, que apontam defasagem em relação à inflação e cobram medidas concretas do Ministério da Educação (MEC) para recompor o poder de compra dos profissionais da educação básica.
Reajuste do piso e base legal da atualização
O percentual de reajuste definido para 2026 decorre da atualização do valor aluno-ano do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) referente a 2025, conforme estabelecido na legislação que regula o piso nacional do magistério. A publicação oficial ocorreu após o cálculo do indicador, que serve de referência para a correção anual do salário mínimo dos professores da rede pública.
Apesar do cumprimento formal da lei, representantes do setor educacional avaliam que o índice não acompanha a evolução do custo de vida. A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) sustenta que o percentual aprovado não garante recomposição salarial e mantém uma trajetória de perdas acumuladas ao longo dos últimos anos.
Histórico recente de correções abaixo da inflação
Segundo dados apresentados pela CNTE, o critério atual de atualização do piso já resultou em correções consideradas insuficientes em anos anteriores. Em 2021, não houve qualquer reajuste, enquanto em 2024 o aumento foi de 3,62%, número que também ficou abaixo da inflação registrada no período. Para a entidade, a repetição de índices reduzidos compromete a atratividade da carreira docente e afeta a permanência de profissionais qualificados na educação básica.
Financiamento da educação e efeitos de mudanças constitucionais
A discussão sobre o reajuste do piso está diretamente ligada ao financiamento da educação pública. Uma das principais preocupações apontadas pela CNTE é a Emenda Constitucional nº 135, aprovada em 2024. A norma alterou a destinação dos recursos do Fundeb ao reservar parte do montante para o custeio de matrículas em tempo integral, sem ampliar o volume total de investimentos.
De acordo com a entidade, essa redistribuição interna dos recursos pressiona os orçamentos estaduais e municipais, reduzindo a margem para reajustes salariais mais expressivos. Outro fator citado é a arrecadação do ICMS, que ainda não retornou aos níveis registrados em 2022, impactando negativamente a composição do fundo.
Perspectivas para os próximos anos
A CNTE afirma que já alertava para a possibilidade de reajustes nulos ou inferiores à inflação desde a tramitação da proposta que estabeleceu o novo teto de gastos públicos. Para a confederação, o cenário observado em 2026 confirma essas previsões e pode se repetir em 2027. Isso porque a Emenda Constitucional nº 135 também fixou a obrigatoriedade de aplicação mínima de 4% dos fundos estaduais do Fundeb no ensino integral, o que tende a reduzir ainda mais os recursos disponíveis para a remuneração do magistério.
Propostas de alteração na lei do piso
Desde 2023, a CNTE defende mudanças na Lei nº 11.738/2008, que regulamenta o piso salarial nacional dos professores. Entre as propostas apresentadas está a adoção de um novo critério de reajuste, baseado na variação anual do INPC somada a 50% da média de crescimento real das receitas do Fundeb nos últimos cinco anos.
Outra sugestão envolve a vinculação do piso à formação acadêmica. A proposta prevê um acréscimo de 25% para professores com formação superior, mantendo a proporcionalidade do piso para o nível médio. O objetivo seria valorizar a qualificação profissional e fortalecer os planos de carreira nos estados e municípios.
Negociações paralisadas e falta de diálogo
As propostas receberam aval do conselho nacional de entidades da CNTE, porém as negociações não avançaram. Segundo a confederação, os debates estão paralisados desde maio de 2025 em razão da resistência do Conselho Nacional de Secretários de Educação. A entidade também relata dificuldades de interlocução com o MEC, que não teria conseguido conduzir as tratativas de forma efetiva.
Uma reunião prevista para 15 de dezembro foi cancelada sem justificativa formal, o que ampliou a insatisfação da categoria. Desde então, a CNTE afirma que tomou conhecimento de possíveis alternativas para enfrentar as perdas salariais apenas por meio de declarações do ministro da Educação, Camilo Santa, divulgadas pela imprensa.
Situação do Fórum do Piso
Criado para discutir especificamente a política de valorização do magistério, o Fórum do Piso permanece inativo, conforme relata a CNTE. A ausência de reuniões e de um canal institucional de diálogo tem sido apontada como um dos principais entraves para a construção de soluções que contemplem tanto o financiamento da educação quanto a remuneração dos profissionais.

