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11 de julho de 2026 14:40

OpiniãoMT > Blog > Artigos > ARTIGO: O novo complexo de vira-latas
Artigos

ARTIGO: O novo complexo de vira-latas

última atualização: 11 de julho de 2026 12:44
Jornalista Mauad
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5 Minutos de Leitura
Foto: Reprodução
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O Brasil parece ter trocado um fantasma por outro. Abandonamos o antigo complexo de inferioridade — aquele diagnóstico cirúrgico de Nelson Rodrigues — para abraçar uma resignação talvez mais perversa: o complexo de meros produtores de matéria-prima.

Aceitamos, com uma passividade alarmante, o papel de competência limitada à etapa inicial da produção. Somos eficientes na extração, mas tragicamente incapazes na retenção.

Essa dinâmica, que há muito molda nossa pauta de exportações minerais e agrícolas, estende-se agora como uma sombra sobre a identidade cultural e esportiva do país. O raciocínio econômico que exporta o grão bruto e importa o produto industrializado refinado é o mesmo que empacota o talento jovem das nossas bases para ser lapidado e aplaudido nos gramados europeus. Convertemos nossos clubes em meras fazendas de entretenimento global.

O impacto disso na alma do torcedor é o esvaziamento do pertencimento. Antigamente, o futebol costurava mitologias locais; hoje, a visão de “clube formador e vendedor” impede o nascimento do ídolo doméstico.

O sonho do jovem atleta foi terceirizado: o ápice já não é o protagonismo no Maracanã ou no Mineirão, mas o olhar de um olheiro estrangeiro que o retire do país antes mesmo da maioridade. Assistimos ao auge dos nossos melhores talentos em fusos horários distantes, muitas vezes sob narrações em outros idiomas, restando ao público local o papel de sustentar o espetáculo alheio com as sobras.

Há um custo técnico e tático invisível nessa sangria. Ao exportar a “matéria-prima humana” de forma precoce, exportamos também o tempo de maturação. Atletas que amadurecem sob cartilhas europeias perdem a “língua materna” do nosso estilo de jogo.

Quando se reúnem na Seleção Nacional, o que se vê não é uma escola unificada, mas um “Frankenstein tático” — um mosaico de conceitos importados que não dialogam entre si. Um fenômeno que, sintomaticamente, já transborda do futebol para o vôlei e o basquete.

Do ponto de vista puramente contábil, a armadilha se revela um ciclo vicioso. Em 2024, embora os vinte maiores clubes do país tenham alcançado uma arrecadação histórica de quase R$ 11 bilhões, as transferências internacionais responderam por quase R$ 3 bilhões desse montante.

Faturou-se como nunca, mas gastou-se ainda mais: a expansão dos custos operacionais com folhas salariais cresceu no ritmo alarmante de 26%, empurrando o futebol brasileiro de um superávit saudável em 2023 para um déficit superior a R$ 1 bilhão no ano seguinte.

A venda de atletas tornou-se o balão de oxigênio inevitável para fechar o caixa de gestões imediatistas. Usa-se uma receita não recorrente — o imponderável de uma grande venda — para cobrir o custeio diário e tapar buracos fiscais. No caminho, o lucro real multiplica-se longe de nossas fronteiras.

Portugal, por exemplo, consolidou-se como o grande entreposto comercial desse mercado: compra o jovem promissor ainda “verde”, assume a lapidação final e o revende para os gigantes da Premier League por valores até cinco vezes maiores. Enquanto o campeonato inglês distribui cerca de R$ 14,4 bilhões em direitos de transmissão por temporada, o nosso Brasileirão distribui pouco mais de R$ 2 bilhões, tornando qualquer proposta em euro um ultimato irresistível para clubes endividados.

É a consagração da “seleção adversa”: exporta-se o ótimo, retém-se o regular. A médio prazo, a qualidade do produto interno desaba, minguando o público nos estádios e desvalorizando os contratos de televisão nacionais.

O problema, portanto, não reside na exportação em si, mas na incapacidade crônica de adicionar valor dentro de casa. Nações desenvolvidas controlam suas marcas e sua tecnologia; nós aceitamos o papel de fornecedores eficientes que assistem, da arquibancada, ao prestígio e à valorização de nossa própria criatividade serem capturados por terceiros.

O novo vira-lata já não se julga incapaz de criar; ele apenas se contenta em colher a soja e formar o craque, deixando o banquete da excelência para o resto do mundo.

*Marcelo Augusto Portocarrero é engenheiro civil.

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