*Sêmia Mauad/ Opinião MT
Aprofundando as investigações sobre o suposto esquema de corrupção e ingerência política na Câmara Municipal de Várzea Grande, a Operação Cathedra Venalis, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) no último dia 20 de outubro, revelou uma teia de transações financeiras atípicas. O relatório da Coordenadoria de Análise do órgão apontou movimentações milionárias incompatíveis com a renda declarada por vereadores, assessores, familiares e empresários da região.
Concluído em 13 de agosto e fundamentado em dois Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs), o documento detalha transferências bancárias sem justificativa aparente, depósitos expressivos em espécie, saques fracionados e até o triangulamento de recursos públicos voltados à saúde pública municipal.
NÚCLEO DE MIGUEL ANGEL LIDERA VOLUME FINANCEIRO E ENVOLVE EMPRESA FAMILIAR DA SAÚDE
De acordo com o Gaeco, o núcleo ligado ao vereador Miguel Angel (Cidadania) apresenta a maior complexidade e o maior volume financeiro da investigação. Em apenas seis meses, foram movimentados R$ 3,17 milhões em transações cruzadas envolvendo o parlamentar, agentes políticos, familiares e a empresa CEMED-VG.
A CEMED-VG, apontada pelos investigadores como pertencente ao núcleo familiar do parlamentar, figura como peça central por ter recebido recursos originários de fundos municipais de saúde e organizações do terceiro setor. Posteriormente, a empresa realizou repasses financeiros diretos para o próprio vereador Miguel Angel, para o pai dele, Rafael Piovezan de Campos, e para outra familiar deste último. Entre os registros que chamaram a atenção dos analistas está um depósito de R$ 62,5 mil em espécie sem comprovação de origem.
EMPRESA DE SEGURANÇA E REPASSES A CILCINHO
Outro foco detalhado na análise pericial envolve o vereador Cilço da Cruz Filho, o Cilcinho (PV), e a relação comercial e financeira com a empresa Grampo Segurança e Monitoramento Ltda.
Os dados do Coaf e do Gaeco revelam que a empresa de segurança transferiu R$ 546,3 mil para Cilcinho, enquanto o vereador repassou R$ 75,3 mil para a firma, totalizando R$ 621,6 mil em movimentações de via dupla. A investigação apurou ainda que a Grampo Segurança recebia aportes financeiros de empresas dos setores de construção civil, engenharia e incorporação imobiliária, efetuando em seguida distribuições a familiares do vereador e a terceiros. Ao todo, a movimentação pessoal do parlamentar somou R$ 713 mil, incluindo operações em dinheiro vivo no valor de R$ 76,4 mil.
ASSSESSOR COMISSIONADO ATUAVA COMO “ELO FINANCEIRO NO NÚCLEO DO PRESIDENTE DA CÂMARA
A análise do Gaeco também lançou luz sobre as finanças do presidente do Legislativo de Várzea Grande, Wanderley Cerqueira (MDB). O relatório identificou R$ 22,8 mil em movimentações diretas que envolvem Aloisio Osvino Dreyer, assessor comissionado da Câmara Municipal.
Conforme os investigadores, Aloisio mantinha intensa rotina de operações financeiras com filhos, irmãos e pessoas ligadas ao núcleo familiar e político de Wanderley Cerqueira. O Gaeco classifica o servidor como o “elo financeiro” entre o presidente da Casa, parentes e pessoas vinculadas ao órgão legislativo, embora a finalidade legal das transferências ainda não tenha sido especificada no inquérito.
ENTENDA O ESCOPO DA OPERAÇÃO CATHEDRA VENALIS
Deflagrada na úçtima terça-feira, dia 20 de outubro, a Operação Cathedra Venalis mobilizou cerca de 200 policiais militares e tropas de elite para cumprir 30 mandados de busca e apreensão em Cuiabá, Várzea Grande e Chapada dos Guimarães. O objetivo central é desarticular uma suposta organização criminosa acusada de cooptar parlamentares, pagar vantagens indevidas e fraudar a disputa pela Mesa Diretora do Legislativo.
Na capital, a operação cumpriu mandados contra os vereadores Ilde Taques (eleito presidente da Câmara de Cuiabá para 2027/2028) e Alex Rodrigues, ambos do Podemos.
Já em Várzea Grande, a varredura atingiu o presidente Wanderley Cerqueira, a diretora financeira Lorineide Inha, o secretário legislativo Samir Japonês e outros 12 vereadores: Alessandro Moreira, Braz Jaciro, Cilcinho, Denival Galibert, Emerson Cesar, Gisa Barros, Kleberton Feitoza, Lucélia Oliveira, Miguel Angel, Raul Curvo, Rogerinho da Dakar e Wender Silva.
A crise na Câmara de VG arrasta-se desde a anulação, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da eleição da Mesa ocorrida em maio deste ano, quando Cerqueira havia sido reeleito por 12 a 11 votos. Os materiais apreendidos pela força-tarefa estão na sede do Gaeco para perícia.

