*Sêmia Mauad/ Opinião MT
Mato Grosso já contabiliza 34 mulheres vítimas de feminicídio ao longo de 2026, de acordo com os dados consolidados pelo Observatório Caliandra, vinculado ao Ministério Público de Mato Grosso (MPMT). A violência extrema registrada nos crimes também deixa um rastro de dor e desamparo, somando 47 órfãos no estado.
O levantamento aponta que o mês de junho foi o mais violento do ano até o momento, com sete mortes registradas. Na sequência aparecem os meses de março e agosto, com seis casos cada.
O mês de setembro registrou um feminicídio até o momento. O caso ocorrido no dia 2 de setembro, em Araguaiana, onde Suenilda Vieira, de 37 anos, foi assassinada a tiros pelo marido, Fábio Júnior Januário Dias, de 42 anos. Na ocasião, o agressor ainda tentou matar os dois filhos do casal, sendo que um deles foi atingido por um disparo na perna. O autor acabou morto em confronto com policiais da Força Tática.
CASOS EXTREMOS NO INTERIOR E NA REGIÃO METROPOLITANA
A violência de gênero tem atingido diferentes regiões do estado, marcada por extrema crueldade e o envolvimento de companheiros ou ex-companheiros.
-Aripuanã: Valquiria Araújo Lopes da Silva, de 29 anos, foi morta a tiros pelo marido, Leomar Ramos da Cruz, de 29 anos, na residência do casal, no bairro Vila Operária. Após o crime, o homem fugiu levando as duas filhas e telefonou para os pais para confessar o assassinato.

-Castanheira: A professora Adélia Cristina de Oliveira Batista, de 49 anos, foi estrangulada pelo namorado, Joel Laureano Ferreira, de 46, após uma discussão motivada por ciúmes e pelo fim do relacionamento. O corpo foi jogado em uma represa.

-Guarantã do Norte: Gleici Fátima Machado Ritter, de 37 anos, foi assassinada a tiros dentro da residência. O principal suspeito é o marido, Matheus Gonçalves dos Santos, de 33 anos, que fugiu com o filho do casal e acabou morto após trocar tiros com policiais paraguaios na região de fronteira com Mato Grosso do Sul.

-Nova Bandeirantes: Ana Cláudia dos Santos Veiga, de 22 anos, foi morta a golpes de facão pelo marido, de 34 anos. O corpo foi escondido em uma fossa no quintal da residência. O autor fugiu levando o filho do casal, de dois anos, mas foi preso posteriormente em Alta Floresta.
-Várzea Grande: Entre os registros da cidade, destaca-se o caso de uma menina de 12 anos encontrada desacordada na casa do pai, Claudinei da Silva, que não resistiu e morreu. O pai já possuía histórico de prisão por tentativa de homicídio contra a ex-esposa em 2018.

-Várzea Grande: Em outro caso no município, Josivany Borges de Amorim Rodrigues, de 45 anos, foi assassinada e teve o corpo carbonizado, tendo Gabryel Junio de Almeida Dirceu, de 20 anos, como acusado.

-Poxoréu: Suely Freitas dos Reis, de 26 anos, foi vítima de estupro, tortura e assassinato. O principal suspeito, um homem de 44 anos, morreu durante uma ação policial em uma área de mata.

RANKING DOS MUNICÍPIOS E PERFIL DOS CRIMES
Cuiabá lidera o ranking estadual com o maior número de feminicídios em 2026, contabilizando cinco vítimas. Várzea Grande e Vila Bela da Santíssima Trindade registram três casos cada; Tangará da Serra, Poconé e Nova Bandeirantes aparecem com dois feminicídios cada. Outros 17 municípios registraram uma ocorrência no período.
Em relação aos meios empregados nos crimes, as armas perfurantes, como facas, lideram, sendo utilizadas na morte de 15 mulheres. Outras sete vítimas foram mortas por asfixia ou estrangulamento, sete por armas de fogo, além de casos envolvendo instrumento contundente, atropelamento e espancamento.
As principais motivações mapeadas pelo Observatório mostram que ciúmes, sentimento de posse e machismo encabeçam a lista, motivando 10 dos crimes. O menosprezo e a discriminação aparecem em nove casos, seguidos por conflitos gerados por separação, tentativa de rompimento ou discussões, sendo seis casos, além de motivação financeira.
A AUSÊNCIA DE MEDIDAS PROTETIVAS E O CENÁRIO HISTÓRICO
Um dos dados mais alarmantes levantados pelo Ministério Público é a vulnerabilidade das vítimas. Dos 34 feminicídios registrados em 2026, apenas duas mulheres possuíam medida protetiva, enquanto 32 não contavam com esse mecanismo de proteção judicial.
Além disso, apenas nove vítimas tinham registro prévio de boletim de ocorrência contra os agressores, o que reforça a subnotificação e a dificuldade de romper o ciclo de violência antes do desfecho fatal. Dos 34 casos, 25 não possuíam nenhum histórico registrado.
Em comparação com o ano anterior, o Observatório Caliandra registrou 54 feminicídios em 2025, o segundo maior número dos últimos sete anos, tendo junho também como o mês mais violento daquele ano, com 10 casos.
O recorde da série histórica permanece no ano de 2020, primeiro ano da pandemia de Covid-19, quando 62 mulheres foram assassinadas em Mato Grosso em decorrência do gênero.

