Na aurora da vida, como diria Casimiro de Abreu, meu pai viu-se acolhido pelo farmacêutico Dr. Cláudio Fragelli, um divisionista histórico radicado em Campo Grande (MS) e pai do ex-governador de Mato Grosso, José Fragelli. Ele o ajudou na matrícula como aluno interno no Ginásio Municipal de Campo Grande, depois Colégio Salesiano Dom Bosco, rejeitado que fora ao se apresentar para o internato, para dar vaga a outro aluno mais afortunado. Na ocasião, ouviu de seu benfeitor que aproveitasse a oportunidade para estudar e, no futuro, ajudasse a dividir o Estado de Mato Grosso.

Prodigiosa antevisão do futuro teve o Dr. Fragelli, embora jamais pudesse imaginar que aquele garoto magricela de Bela Vista (hoje também em MS), a quem apadrinhava naquele momento, viria, em 1977, a participar de fato do processo de divisão — só que integrando a equipe de governo de Mato Grosso remanescente, enquanto presidia o Banco do Estado (BEMAT). Uma transição que, incontestavelmente, foi benéfica para ambas as unidades federativas.
De forma semelhante, papai, que no início dos anos sessenta veio com a família morar em Cuiabá, já nos dizia profeticamente, àquela época, que este era o lugar onde pretendia fixar raízes definitivas quando sua vida itinerante permitisse.
Quis Deus, o Grande Arquiteto do Universo, que assim fosse. Após levá-lo de Cuiabá para estados do Sudeste, como Rio de Janeiro e São Paulo, a vida o trouxe de volta à capital mato-grossense em 1970. Daqui ele não mais saiu, consolidando uma trajetória de respeito e cidadania que raramente vi enraizar de forma tão profunda. Um legado que, por consequência, estendeu-se a seus filhos e descendentes.
Tento fazer, neste breve texto, uma justa homenagem a um homem que dedicou sua vida à família e ao trabalho. Nascido em 16/08/1923, no imponente Mato Grosso de antes da divisão, ele carregava o orgulho de ser duplamente mato-grossense: uma vez por nascimento, outra por circunstância. Em reconhecimento a essa dedicação, tornou-se também cuiabano, título honorífico que recebeu ainda em vida.
Certamente, os que o conheceram acharão que disse muito pouco a seu respeito e sobre suas realizações. E ele próprio, com seu natural desprendimento e simplicidade, diria que nem mesmo estas poucas linhas deveriam ter sido escritas.
Quando partiu para o oriente eterno, deixou um pedido que foi prontamente atendido pelos filhos: que suas cinzas fossem partilhadas, descansando metade em sua inesquecível terra natal, junto a seus pais, e metade em Cuiabá, ao lado da amada esposa.
É assim que o guardo em meu coração e, creio, é como ele gostaria de ser lembrado. De todo modo, seu nome está eternizado na querida Cuiabá, batizando a avenida que conecta o bairro Ribeirão da Ponte à MT-010 e aos condomínios Florais, sendo assim um dos vetores do desenvolvimento daquela região — uma justa, perfeita e merecida homenagem.
*Marcelo Augusto Portocarrera

