No Dia dos Pais, costumamos lembrar das semelhanças que atravessam gerações.
O mesmo jeito de sorrir.O formato do rosto.O temperamento.
A maneira de andar, falar ou reagir diante da vida.
Mas existe uma herança menos visível e igualmente importante , que também pode passar de pai para filho: a predisposição para determinadas doenças.
Hipertensão, colesterol elevado, diabetes, obesidade, infarto precoce, arritmias e algumas doenças do músculo cardíaco podem ocorrer com maior frequência em determinadas famílias. Isso não significa que o filho esteja condenado a repetir a história do pai. Significa que essa história precisa ser conhecida.
A GENÉTICA NÃO É UMA SENTENÇA
Recebemos aproximadamente metade do nosso material genético do pai e metade da mãe. Algumas características são determinadas por alterações em um único gene, mas a maioria das doenças cardiovasculares resulta de uma interação muito mais complexa.
São centenas ou milhares de pequenas variações genéticas atuando junto com alimentação, atividade física, sono, tabagismo, estresse, peso corporal, pressão arterial e ambiente.
Por isso, ter um pai que sofreu um infarto não significa que o filho também sofrerá. No entanto, especialmente quando o evento ocorreu precocemente, esse antecedente funciona como um importante sinal de alerta e deve ser considerado na avaliação individual do risco cardiovascular. A história familiar é reconhecida pelas principais diretrizes como um fator capaz de aumentar o risco e influenciar decisões preventivas.
Em outras palavras: A genética pode carregar a arma, mas é a interação com o ambiente e com a rotina que, muitas vezes, determina se o gatilho será acionado.
ALGUMAS HERANÇAS MERECEM ATENÇÃO ESPECIAL
Um exemplo importante é a hipercolesterolemia familiar, uma condição genética que pode causar níveis muito elevados de colesterol LDL desde a infância.
Como geralmente não produz sintomas, uma pessoa pode conviver durante décadas com o colesterol alto sem saber. Em algumas famílias, o primeiro sinal da doença pode ser um infarto ou outro evento cardiovascular em idade jovem.
Quando essa condição é identificada em um integrante da família, pais, irmãos e filhos devem ser avaliados. Esse processo é chamado de rastreamento em cascata e permite encontrar precocemente outros familiares que também possam estar sob risco.
A lipoproteína(a), conhecida como Lp(a), também merece atenção. Seus níveis são fortemente determinados pela genética e podem ajudar a explicar por que algumas pessoas apresentam doença cardiovascular mesmo mantendo hábitos aparentemente adequados.
Além disso, determinadas cardiomiopatias, doenças da aorta, alterações elétricas do coração e formas de morte súbita podem possuir um componente hereditário relevante. Nesses casos, a avaliação dos familiares não deve começar somente depois que aparecem sintomas
NÃO HERDAMOS APENAS GENES
Dentro de uma família, também compartilhamos a mesa, os hábitos, os exemplos e a maneira como cuidamos da saúde.
O filho pode herdar do pai uma predisposição à hipertensão. Mas também pode aprender com ele a consumir alimentos em excesso, fumar, permanecer sedentário e evitar consultas médicas.
Da mesma forma, pode aprender a praticar exercícios, cuidar da alimentação, realizar avaliações preventivas e compreender que procurar ajuda não é sinal de fraqueza.
A história familiar reúne genes, comportamentos e exposições ambientais. Por isso, conhecer a saúde dos pais, avós e irmãos oferece informações que nenhum exame isolado consegue substituir.
O QUE DEVEMOS PERGUNTAR A FAMÍLIA?
Em muitas casas, sabemos onde nossos pais nasceram, para qual time torcem e quais histórias viveram, mas desconhecemos informações básicas sobre sua saúde.
Neste Dia dos Pais, algumas perguntas podem valer mais do que muitos presentes:
Alguém na família teve infarto ou derrame? Com qual idade?
Há casos de morte súbita ou morte sem explicação?
Existe colesterol muito alto, hipertensão ou diabetes?
Algum familiar precisou colocar marca-passo ou desfibrilador?
Existem casos de aneurisma, aumento do coração ou insuficiência cardíaca?
Alguma doença cardiovascular apareceu antes dos 55 anos nos homens ou antes dos 65 anos nas mulheres?
Mais importante do que saber apenas que “há problema de coração na família” é descobrir qual foi o problema e com que idade ele apareceu.
O MELHOR LEGADO É ANTECIPAR
Quem possui histórico familiar relevante pode precisar iniciar a prevenção mais cedo e de forma mais individualizada.
Isso pode incluir avaliação da pressão arterial, glicemia, perfil de colesterol, Lp(a), composição corporal, hábitos de sono e nível de atividade física. Dependendo do caso, exames complementares ou aconselhamento genético podem ser indicados.
Nem toda pessoa com histórico familiar precisa realizar teste genético. A maioria das doenças cardiovasculares não é causada por uma única mutação, e a necessidade de investigação deve ser definida a partir da história clínica, do exame físico e do padrão observado na família.
Mesmo quando existe predisposição, há muito que pode ser feito. Alimentação equilibrada, exercícios regulares, controle do peso, ausência de tabagismo, sono adequado e tratamento correto da pressão, do colesterol e da glicose reduzem o risco cardiovascular.
De pai para filho, uma nova forma de cuidar
Talvez o maior presente de um pai não seja esconder seus problemas para não preocupar os filhos.Talvez seja contar sua história.
Compartilhar diagnósticos, exames e acontecimentos importantes permite que os filhos se cuidem mais cedo. E talvez o maior presente de um filho seja ajudar o pai a compreender que ainda há tempo para mudar a direção dessa história.
Não escolhemos os genes que recebemos. Mas podemos escolher o que faremos com essa informação.
Neste Dia dos Pais, além de celebrar o amor, o exemplo e as memórias, converse sobre saúde.Porque algumas heranças não podem ser modificadas. Mas podem ser compreendidas, acompanhadas e tratadas.
E há um legado que pode atravessar gerações de maneira ainda mais poderosa do que a genética: o exemplo de que saúde não é sorte. É rotina.
*Dr. Max Wagner de Lima Cardiologista — Prevenção, cardiometabolismo e longevidade
CRM 6194 | RQE 2308Luminae

