Benedito Ruy Barbosa morreu nesta terça-feira (7), em São Paulo, aos 95 anos, em decorrência de complicações provocadas por insuficiência renal crônica. A informação foi confirmada pelo Hospital do Coração (HCor). Reconhecido como um dos maiores autores da televisão brasileira, o dramaturgo marcou gerações com novelas que retrataram o campo, a imigração, os conflitos familiares e a identidade cultural do país, deixando uma contribuição duradoura para a teledramaturgia nacional.
Velório será realizado em São Paulo
O velório do escritor acontece nesta terça-feira (7), no Funeral Home, localizado no bairro Bela Vista, região central da capital paulista. A cerimônia foi programada para ocorrer entre 15h e 21h, sendo aberta ao público durante a primeira hora, das 15h às 16h.
Nos primeiros meses deste ano, o dramaturgo chegou a permanecer internado por 19 dias no HCor para tratar uma infecção urinária associada ao quadro de insuficiência renal crônica. Desde então, seu estado de saúde exigia acompanhamento médico contínuo.
Benedito Ruy Barbosa transformou a televisão brasileira
Ao longo de décadas de carreira, Benedito Ruy Barbosa consolidou seu nome entre os principais autores da dramaturgia brasileira. Suas produções ficaram conhecidas por apresentar histórias ambientadas no interior do Brasil, valorizando a vida no campo, as tradições rurais, os costumes regionais e a influência da imigração italiana na formação da sociedade brasileira.
Além das paisagens naturais, suas novelas destacavam personagens marcados por valores como honestidade, perseverança, coragem e forte ligação com a família. Essas características fizeram de suas obras referências na televisão nacional.
Entre os títulos mais conhecidos estão “Meu Pedacinho de Chão”, “Pantanal”, “Renascer”, “O Rei do Gado”, “Terra Nostra”, “Cabocla”, “Sinhá Moça” e “Velho Chico”, produções que conquistaram audiência e reconhecimento da crítica.
Infância simples marcou o início da trajetória
Origem no interior paulista
Nascido em 1931, na cidade de Gália, interior de São Paulo, Benedito passou parte da infância em Vera Cruz, município cercado por lavouras de café e fortemente influenciado pela presença de imigrantes japoneses e italianos.
A morte prematura do pai mudou completamente a rotina da família. Ainda muito jovem, precisou ingressar no mercado de trabalho para ajudar nas despesas da casa.
Diversos empregos antes da carreira artística
Antes de conquistar espaço como escritor, exerceu diferentes funções profissionais. Trabalhou em empresa comercial, vendeu verduras e também atuou como faxineiro.
Posteriormente, conseguiu uma oportunidade como revisor no jornal O Estado de S. Paulo, experiência que fortaleceu seu contato com a escrita e abriu caminho para sua futura carreira como roteirista.
Foi nesse período que escreveu seu primeiro romance, “Fogo Frio”. A obra foi adaptada para o teatro e recebeu reconhecimento da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), tornando-se um importante marco em sua formação como autor.
Carreira na televisão começou na década de 1960
A estreia de Benedito Ruy Barbosa na televisão ocorreu em 1966, quando escreveu a novela “Somos Todos Irmãos”, exibida pela TV Tupi.
Nos anos seguintes, passou por diferentes emissoras, incluindo Excelsior, Record e TV Cultura. Em 1971, assinou “Meu Pedacinho de Chão”, novela produzida em parceria entre a TV Cultura e a Globo, que alcançou boa repercussão.
Poucos anos depois, ingressou definitivamente na Globo, onde iniciou uma sequência de produções de sucesso. Entre elas esteve a adaptação de “Cabocla”, exibida em 1979, baseada na obra do escritor Ribeiro Couto.
Pantanal revolucionou a produção de novelas
Em 1990, durante passagem pela TV Manchete, Benedito escreveu “Pantanal”, novela que se tornou um fenômeno da televisão brasileira.
A produção inovou ao utilizar extensas gravações em ambientes naturais, valorizando a paisagem do Pantanal e apresentando uma fotografia diferenciada para os padrões da época. A combinação entre natureza, regionalismo, elementos místicos e conflitos familiares conquistou o público e transformou a novela em um dos maiores sucessos da história da TV brasileira.
Posteriormente, o autor retornou à Globo, onde escreveu “Renascer”, em 1993. Décadas depois, tanto “Pantanal” quanto “Renascer” ganharam novas versões adaptadas por seu neto, Bruno Luperi.
Obras abordaram imigração, terra e conflitos familiares
Durante os anos 1990, Benedito Ruy Barbosa produziu outras novelas que também marcaram época.
Em “O Rei do Gado”, explorou os conflitos entre famílias descendentes de italianos enquanto inseria debates sobre reforma agrária, posse de terras e desigualdade social.
Já em “Terra Nostra”, exibida em 1999, apresentou a trajetória de imigrantes italianos que chegam ao Brasil no início do século XX, abordando os desafios enfrentados durante o processo de adaptação e construção de uma nova vida.
Mais tarde, revisitou parte de sua própria obra ao escrever novas versões de “Sinhá Moça” e “Meu Pedacinho de Chão”. Nesta última, afirmou ter conseguido incluir ideias que anteriormente haviam sido limitadas durante o período da ditadura militar.
Seu último grande trabalho inédito foi “Velho Chico”, lançada em 2016, novela ambientada no sertão nordestino e centrada em disputas familiares, conflitos pela posse da terra e relações de poder no interior do país.

