O desempenho das vendas do comércio brasileiro apresentou forte desaceleração em abril, refletindo os efeitos de um cenário econômico marcado por juros elevados e redução do ritmo de consumo. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o setor registrou retração de 1,5% na comparação com março, representando o primeiro resultado negativo de 2026 e a maior queda mensal observada desde junho de 2022.
Apesar do recuo no comparativo mensal, o varejo ainda apresentou crescimento de 1,0% em relação ao mesmo mês do ano anterior. No entanto, o resultado ficou abaixo das projeções do mercado financeiro, que esperava uma retração mais moderada no período.
Vendas do comércio surpreendem negativamente em abril
Os números divulgados pelo IBGE indicam uma desaceleração mais intensa do que a prevista por analistas. As estimativas apontavam para queda de 0,6% frente ao mês anterior e avanço próximo de 2% na comparação anual.
O resultado reforça os desafios enfrentados pelo setor varejista em um ambiente de crédito mais caro. Atualmente, a taxa básica de juros da economia, a Selic, permanece em 14,5% ao ano, fator que impacta diretamente a capacidade de consumo das famílias e o acesso ao financiamento.
Além dos juros elevados, a pressão inflacionária observada em diversos segmentos da economia também tem contribuído para reduzir o poder de compra dos consumidores.
Combustíveis lideram retração entre os segmentos pesquisados
Entre as oito atividades analisadas pelo IBGE, seis registraram desempenho negativo em abril. O principal impacto veio do setor de combustíveis e lubrificantes, que apresentou queda de 6,2% no volume comercializado.
Também registraram retração significativa:
Setores com maiores quedas
- Combustíveis e lubrificantes: -6,2%;
- Outros artigos de uso pessoal e doméstico: -4,6%;
- Equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação: -4,5%;
- Móveis e eletrodomésticos: -0,8%;
- Tecidos, vestuário e calçados: -0,1%;
- Produtos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria: -0,1%.
A redução observada em segmentos ligados ao consumo de bens duráveis também evidencia o impacto das condições de crédito mais restritivas sobre as decisões de compra das famílias brasileiras.
Supermercados e papelarias apresentam crescimento
Enquanto a maior parte das atividades registrou retração, alguns segmentos conseguiram encerrar abril em alta.
O grupo formado por hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo registrou crescimento de 1,3% no período. Já o segmento de livros, jornais, revistas e papelaria avançou 1,1%.
Esses resultados ajudaram a amenizar uma queda ainda maior no desempenho geral do varejo, embora não tenham sido suficientes para compensar as perdas verificadas nos demais setores.
Consumo das famílias segue sustentado pelo mercado de trabalho
Mesmo diante das dificuldades enfrentadas pelo comércio, indicadores recentes mostram que o consumo das famílias ainda encontra suporte em fatores como o mercado de trabalho aquecido e medidas de incentivo ao crédito e à renda.
Dados do Produto Interno Bruto (PIB) divulgados anteriormente pelo próprio IBGE apontaram que o consumo das famílias cresceu 1,0% no primeiro trimestre do ano, acelerando em relação ao período imediatamente anterior.
Esse cenário demonstra que, embora o consumo continue resiliente em alguns setores, a combinação entre juros elevados e inflação ainda exerce influência significativa sobre o comportamento dos consumidores.
Comércio varejista ampliado também registra queda
O levantamento do IBGE também revelou desempenho negativo no chamado comércio varejista ampliado, indicador que engloba, além do varejo tradicional, os segmentos de veículos, motocicletas, peças automotivas, materiais de construção e atacado especializado de alimentos, bebidas e fumo.
Nesse recorte mais abrangente da atividade econômica, o volume de vendas apresentou retração de 0,7% em abril na comparação com março, reforçando o movimento de desaceleração observado no comércio nacional.
Os dados indicam que a perda de ritmo não ficou restrita a segmentos específicos, atingindo diferentes áreas ligadas ao consumo e ao investimento das famílias.

