O avanço das bets no Brasil tem gerado reflexos diretos na economia, especialmente no consumo das famílias. Um levantamento divulgado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) indica que a inadimplência associada às apostas online provocou uma retração de R$ 143 bilhões no varejo nacional entre janeiro de 2023 e março de 2026.
Impacto das bets no consumo das famílias
Segundo dados do Observatório do Comércio, núcleo de estudos da CNC, os brasileiros passaram a direcionar mais de R$ 30 bilhões mensais para plataformas digitais de apostas durante o período analisado. Esse volume expressivo de recursos, que deixou de circular no comércio tradicional, contribuiu para um cenário de pressão sobre o consumo.
A entidade destaca que esse comportamento financeiro afetou diretamente o orçamento doméstico. Como consequência, cerca de 270 mil famílias entraram em um estágio considerado crítico de inadimplência, caracterizado por atrasos superiores a 90 dias no pagamento de dívidas.
Efeito macroeconômico preocupa setor
O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, afirmou que o fenômeno ultrapassou o impacto individual e passou a representar um desafio mais amplo para a economia. De acordo com ele, o crescimento das apostas digitais compromete a renda disponível das famílias e exige debate sobre regulação, especialmente em relação à publicidade e à proteção do consumidor.
Perfil das famílias mais afetadas
O estudo também identificou os grupos mais vulneráveis ao endividamento relacionado às apostas. Homens, pessoas com idade a partir de 35 anos e famílias de baixa renda aparecem como os mais impactados.
Entre esses consumidores, as apostas tendem a elevar o nível geral de dívidas. Já nas classes de maior renda, o levantamento aponta que as bets muitas vezes substituem outras formas de crédito, embora ainda resultem em inadimplência.
Relação direta entre bets e inadimplência
Pela primeira vez, a CNC estabelece uma ligação direta entre o uso de plataformas de apostas e o aumento da inadimplência no país. O estudo indica que famílias impactadas por esse tipo de gasto levam mais tempo para regularizar suas pendências financeiras, quando comparadas a situações tradicionais de endividamento, como cartão de crédito ou empréstimos pessoais.
Dados anteriores da entidade já sinalizavam essa tendência. Em 2024, por exemplo, o varejo deixou de faturar R$ 103 bilhões, enquanto aproximadamente 1,8 milhão de brasileiros passaram a enfrentar dificuldades financeiras relacionadas às apostas.
Setor de apostas questiona levantamento
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa empresas legalizadas do segmento, contestou o estudo. A entidade encaminhou uma notificação formal à CNC solicitando acesso completo às informações e critérios utilizados na pesquisa, além de pedir maior clareza metodológica.
O setor ressalta ainda sua contribuição tributária, destacando que arrecadou R$ 9,95 bilhões em impostos no último ano. Por outro lado, a CNC defende que instituições financeiras e empresas do varejo passem a considerar o comportamento de apostas como um fator relevante na análise de crédito, apontando-o como um possível indicativo de inadimplência futura.

