A ex-secretária Aline Bárbara Mota de Sá Cabral declarou nesta segunda-feira (2), em audiência na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, que tomou conhecimento de uma negociação imobiliária envolvendo o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, e a publicitária Danielle Miranda Fonteles, apontada como marqueteira do PT. O caso foi abordado durante o depoimento prestado aos parlamentares, que investigam possíveis irregularidades relacionadas a benefícios previdenciários.
Negociação de imóvel envolvendo marqueteira do PT
De acordo com o relato da ex-assessora, ela soube inicialmente que Antunes havia adquirido uma residência em Trancoso, distrito de Porto Seguro, na Bahia. Posteriormente, afirmou ter descoberto que a antiga proprietária do imóvel seria Danielle Fonteles, que atuou como marqueteira do PT em campanhas políticas.
Aline informou à comissão que esteve na casa no início de 2025 com a finalidade de orientar a governanta da residência. No entanto, disse não ter confirmação se o processo de compra havia sido totalmente concluído à época.
Segundo seu depoimento, ela viajou de avião até Porto Seguro e foi recebida por um funcionário do empresário. Questionada sobre os detalhes da transação, declarou não ter participado das tratativas nem ter acesso a informações precisas sobre valores ou formalização do negócio.
A menção ao nome da marqueteira do PT surgiu após questionamentos do relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar (União-AL). Inicialmente, Aline demonstrou hesitação ao tratar do assunto, mas confirmou que tinha ciência da negociação, embora sem domínio sobre seus termos contratuais. Conforme seu relato, as conversas sobre a venda teriam ocorrido no final de 2024.
Transferências financeiras apontadas pelo Coaf
Documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) encaminhados à CPMI indicam movimentações que somam R$ 5 milhões transferidos por Antunes para Danielle Fonteles. A informação consta nos autos analisados pelos parlamentares.
Em entrevista à revista Veja, a publicitária declarou que os valores seriam referentes a parcelas da venda do imóvel em Trancoso. Contudo, segundo a própria marqueteira do PT, a negociação não teria sido finalizada em razão do bloqueio judicial das contas do empresário, medida determinada no contexto da Operação Sem Desconto.
A operação investiga suspeitas de irregularidades envolvendo descontos aplicados em benefícios previdenciários. O bloqueio das contas de Antunes ocorreu durante o andamento das apurações.
Acesso a cofre e movimentações internas
Durante a oitiva, Aline também relatou que possuía autorização para acessar o cofre da empresa de Antunes. Segundo afirmou, em algumas ocasiões retirava valores destinados ao pagamento de despesas operacionais, como aquisição de materiais para o escritório.
Ela mencionou que poderia ter entregue quantias ao motorista do empresário para quitar compromissos administrativos, mas afirmou não se recordar com exatidão dos episódios. Disse ainda que não fazia registros formais das retiradas e que desconhecia o montante mantido no cofre.
A ex-secretária ressaltou que não tinha acesso às contas bancárias do empresário nem participava de decisões estratégicas relacionadas à gestão financeira. Conforme declarou aos integrantes da CPMI, também não tinha conhecimento sobre a origem dos recursos ou sobre o patrimônio acumulado por Antunes.
Ao comentar sua contratação, relatou que o empresário se apresentava como um profissional bem-sucedido no ramo empresarial.
Questionamentos sobre repasses e viagens
No decorrer do depoimento, Aline negou ter realizado anotações envolvendo percentuais destinados a agentes públicos ou ter participado de eventuais repasses indevidos. Também afirmou que não adquiriu passagens aéreas nem intermediou recursos para Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
As perguntas feitas pelos parlamentares abrangeram diferentes aspectos da rotina administrativa da empresa, incluindo movimentações financeiras e possíveis vínculos com pessoas investigadas.
Direito ao silêncio e próximos depoimentos
A ex-secretária compareceu à CPMI amparada por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que lhe concedeu habeas corpus garantindo o direito ao silêncio para evitar autoincriminação. Mesmo com essa prerrogativa assegurada, ela respondeu a parte dos questionamentos apresentados durante a sessão.
Além da oitiva de Aline, a comissão também programou o depoimento do advogado Cecílio Galvão. A condução coercitiva foi mantida, e a previsão é de que ele seja ouvido na próxima quinta-feira (5). O objetivo é esclarecer contratos firmados com entidades que estão sob investigação por supostos desvios envolvendo recursos relacionados a benefícios do INSS.

