O governo federal incinerou mais de R$ 108,4 milhões em vacinas, medicamentos e insumos de saúde ao longo de 2025. Desse montante, cerca de R$ 18,5 milhões, equivalente a 17,1% do total, ainda estavam dentro do prazo de validade no momento do descarte. As informações foram obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e divulgadas pelo site Metrópoles.
Apesar de o valor ser inferior ao registrado em anos anteriores, o patamar atual segue acima do período anterior à pandemia de Covid-19. O Ministério da Saúde informou que a taxa de incineração correspondeu a 1,48% do estoque total em 2025 e que a meta estabelecida para este ano é reduzir o índice para 1%.
Vacinas e medicamentos entre os itens descartados
Entre os produtos eliminados estão equipamentos e insumos adquiridos por decisões judiciais. Consta na lista uma bomba de infusão comprada por R$ 900 e dois kits completos para monitoramento de glicose, adquiridos por R$ 58,99 cada em julho de 2019. Segundo os dados, esses kits tinham validade prevista até dezembro de 2050.
Também foram descartados medicamentos de alto custo utilizados no tratamento de câncer, mesmo dentro do prazo de validade. É o caso do blinatumomabe, indicado para Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA), com valor unitário de R$ 141.929,07, e do brentuximabe vedotina, empregado no combate a linfomas, ao custo de R$ 88.905,59 por unidade.
Vacinas contra a dengue, tratamentos voltados a doenças raras, imunizantes contra a Covid-19 e anestésicos amplamente utilizados durante o período pandêmico também aparecem entre os itens incinerados.
Justificativas apresentadas pelo ministério
Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que produtos descartados por não conformidade técnica são substituídos ou ressarcidos conforme as cláusulas contratuais, e contestou a classificação dos casos como desperdício. A pasta, no entanto, não detalhou se houve ressarcimento específico para vacinas e itens adquiridos por judicialização que ainda estavam válidos.
De acordo com o ministério, diferentes fatores contribuem para o descarte, como oscilações na demanda, decisões judiciais suspensas, mudanças no quadro epidemiológico de doenças como malária, dengue, tuberculose e hanseníase, além de atualizações em protocolos clínicos e problemas de armazenamento ou transporte.
O órgão explicou ainda que situações como falecimento do autor de ação judicial, alteração de peso do paciente ou fornecimento do medicamento por outro ente federado podem resultar na devolução do produto ao centro de distribuição. Nessas circunstâncias, a reentrada pode impedir nova dispensação devido a prazo de validade, danos na embalagem ou inadequação na conservação térmica.
Valores acumulados e auditoria da CGU
Nos três primeiros anos do atual mandato, o total de itens incinerados alcança R$ 2 bilhões. O valor é 3,3 vezes superior ao montante registrado durante todo o governo anterior, quando foram descartados R$ 601,5 milhões.
O Ministério da Saúde revisou o dado referente a 2022, informando que o volume correto foi de R$ 457,7 milhões, e não R$ 460,7 milhões como divulgado anteriormente. O maior volume ocorreu em 2023, quando o descarte atingiu R$ 1,3 bilhão.
Após reportagens sobre o tema, a Controladoria-Geral da União (CGU) realizou auditoria e identificou fragilidades nos processos de aquisição e distribuição. O órgão apresentou recomendações com o objetivo de diminuir perdas. Segundo o ministério, todas as medidas apontadas já foram implementadas ou estão em fase final de execução.
Entre as ações citadas pelo governo estão o remanejamento de medicamentos entre programas e estados, doações a outros entes federados ou países, adoção de atas de registro de preços, acompanhamento de mudanças terapêuticas que impactam o consumo, previsão de substituições contratuais e aquisição com cronograma de entregas parceladas.

