Três técnicos de enfermagem foram presos pela Polícia Civil do Distrito Federal nesta segunda-feira (19), suspeitos de envolvimento direto em homicídios ocorridos no Hospital Anchieta, localizado em Taguatinga. O caso, que segue sob investigação, levou as autoridades a apurar a possível existência de outras vítimas em diferentes unidades de saúde onde os investigados atuaram ao longo dos últimos anos.
Prisões e início das investigações
As prisões foram realizadas após a Polícia Civil reunir um conjunto de provas considerado consistente, incluindo imagens de câmeras de segurança e análises detalhadas de prontuários médicos. De acordo com os investigadores, os técnicos de enfermagem teriam atuado de forma coordenada em ao menos três mortes registradas na unidade hospitalar.
A motivação dos crimes ainda não foi esclarecida. As apurações indicam, no entanto, que os suspeitos trabalharam por cerca de cinco anos em hospitais públicos e privados, o que levou a polícia a ampliar o alcance da investigação para outras instituições de saúde do Distrito Federal e do entorno.
Uso irregular de medicamentos
Segundo informações da Coordenação de Repressão a Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP), o principal investigado, de 24 anos, teria utilizado medicamentos fora dos protocolos médicos. Conforme explicou o delegado responsável pelo caso, a substância aplicada pode provocar parada cardíaca em poucos minutos quando administrada de forma inadequada. O nome do medicamento não foi divulgado pelas autoridades.
Os registros indicam que duas das vítimas morreram no dia 17 de novembro, enquanto a terceira morte ocorreu em 1º de dezembro. Em todos os casos, a piora clínica foi descrita como abrupta, sem evolução gradual do quadro de saúde.
Fraude em sistemas hospitalares
Ainda de acordo com a polícia, o técnico de enfermagem acessava o sistema interno do hospital que ficava aberto, simulando ser um médico para prescrever o medicamento. Após isso, dirigia-se à farmácia da unidade, retirava o produto, preparava a dose e aplicava diretamente nos pacientes.
Após a administração, o investigado aguardava o efeito fatal e, em seguida, simulava tentativas de reanimação cardiopulmonar diante da equipe, com o objetivo de afastar suspeitas sobre sua conduta.
Participação de outros técnicos de enfermagem
As investigações apontam que outras duas técnicas de enfermagem teriam conhecimento das ações. Uma delas, de 28 anos, possui histórico profissional em outros hospitais, enquanto a outra, de 22 anos, estava em seu primeiro emprego na área.
As duas estariam presentes nos quartos no momento das aplicações. Imagens analisadas pela polícia mostram que elas observavam a movimentação no corredor, verificando se outras pessoas se aproximavam durante os procedimentos.
Laudos e análise pericial
A diretora do Instituto Médico Legal (IML) da Polícia Civil do DF afirmou que os indícios técnicos demonstram que as aplicações foram intencionais e realizadas de maneira irregular. Segundo os peritos, não houve margem para erro ou confusão quanto aos efeitos da medicação administrada.
O que despertou atenção dos especialistas foi a repetição do padrão clínico: pacientes com estados de saúde distintos, incluindo um com quadro considerado estável, apresentaram deterioração súbita até a parada cardíaca.
Posicionamento do hospital e do conselho
O Hospital Anchieta informou, por meio de nota, que identificou situações atípicas nos óbitos ocorridos na UTI e instaurou um comitê interno por iniciativa própria. Após a apuração, os técnicos de enfermagem envolvidos foram desligados e o material reunido foi encaminhado às autoridades.
A instituição declarou ainda que está colaborando integralmente com as investigações e manifestou solidariedade aos familiares das vítimas.
O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) informou que tomou conhecimento do caso por meio da imprensa e acompanha a situação, adotando as providências cabíveis dentro de suas atribuições legais.
Operação Anúbis
Com base nas provas coletadas, a Polícia Civil deflagrou a Operação Anúbis em 11 de janeiro, nome que faz referência a uma divindade associada à morte. Na primeira fase, duas pessoas foram presas temporariamente e mandados de busca e apreensão foram cumpridos em diferentes regiões do DF e em Águas Lindas, em Goiás.
Na segunda etapa da operação, realizada na quinta-feira (15), foi cumprido mais um mandado de prisão temporária e dispositivos eletrônicos foram apreendidos em Ceilândia e Samambaia.

