O Nepal amanheceu em estado de tensão nesta terça-feira (9), após dias de protestos violentos que resultaram em 19 mortes, centenas de feridos e na renúncia do primeiro-ministro K.P. Sharma Oli. O movimento, liderado principalmente por jovens, começou após o bloqueio de redes sociais e ganhou força com reivindicações contra corrupção, autoritarismo e nepotismo no país.
Protestos tomam as ruas do Nepal
Os protestos no Nepal começaram de forma contida na semana passada, mas ganharam proporções maiores depois que o governo determinou o bloqueio de 26 redes sociais, incluindo Facebook, WhatsApp, Instagram e X. A medida, anunciada com o argumento de combater notícias falsas, foi interpretada pela população como censura à liberdade de expressão.
Milhares de pessoas, especialmente jovens, ocuparam as ruas da capital Katmandu e de outras cidades. A repressão das forças de segurança, que utilizaram munição real contra manifestantes, intensificou a revolta popular.
Conforme relatos da agência Associated Press (AP), a reação da população culminou em incêndios a prédios públicos e residências de ministros. A casa do então premiê Oli foi destruída, episódio no qual sua esposa perdeu a vida. O Parlamento também foi alvo de manifestantes, sendo invadido e incendiado.
A Human Rights Watch denunciou que policiais dispararam diretamente contra estudantes em Katmandu e Itahari. Para a entidade, a resposta do governo representou um grave desrespeito à vida dos cidadãos, e foi solicitado o início de uma investigação independente sobre o uso de força letal.
Geração jovem lidera manifestações
A crise no Nepal tem como protagonistas jovens entre 15 e 28 anos. Eles utilizavam redes sociais para articular protestos contra corrupção e nepotismo. Hashtags como #NepoBabies ganharam força, denunciando privilégios de filhos de políticos ligados ao governo.
Vídeos que circularam no TikTok, mostrando o estilo de vida luxuoso de famílias da elite política, ampliaram o sentimento de indignação. No país, onde a renda per capita é de cerca de US\$ 1.400 anuais e o desemprego juvenil atinge 20%, essas imagens reforçaram o abismo social entre governo e população.
Diante da pressão popular, o governo suspendeu o bloqueio das redes sociais, mas a medida não foi suficiente para conter os atos. Ministros pediram demissão em massa, parlamentares deixaram seus cargos e, por fim, K.P. Sharma Oli anunciou sua renúncia. A sede da Suprema Corte do Nepal também foi invadida e incendiada, aprofundando a instabilidade política.
Especialistas apontam semelhanças entre a situação do Nepal e crises recentes em países vizinhos, como a renúncia de Gotabaya Rajapaksa no Sri Lanka em 2022 e a queda de Sheikh Hasina em Bangladesh em 2024. Em todos os casos, denúncias de corrupção e tentativas de censura digital resultaram em levantes populares de grande impacto.

