Após mais de 25 anos de negociações, Mercosul e União Europeia formalizaram um acordo comercial que promete redesenhar as relações econômicas entre os dois blocos. A assinatura ocorreu nesta quinta-feira, em Assunção, no Paraguai, marcando um passo decisivo para a criação da maior área de livre comércio do mundo.
Cerimônia oficial reúne líderes sul-americanos e europeus
A formalização do acordo comercial foi realizada durante cerimônia no Paraguai, atual presidente rotativo do Mercosul. O Brasil foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, já que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participou do evento presencialmente.
Pelo lado europeu, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, assinou o tratado após receber autorização dos 27 países-membros da União Europeia. O acordo une economias que, juntas, representam um mercado estimado em mais de 720 milhões de consumidores e um Produto Interno Bruto superior a US$ 22 trilhões.
Também participaram da cerimônia os presidentes Javier Milei, da Argentina, Yamandú Orsi, do Uruguai, e Santiago Peña, do Paraguai. Todos discursaram destacando a importância estratégica do tratado para a integração econômica regional.
Lideranças destacam papel de Lula no acordo comercial
Mesmo ausente, o presidente Lula foi mencionado em diversos discursos. O presidente paraguaio Santiago Peña ressaltou que o empenho do líder brasileiro foi decisivo para que o acordo comercial se tornasse realidade. O mesmo reconhecimento foi feito pelo presidente uruguaio e pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, que enviou uma saudação ao chefe do Executivo brasileiro.
Na véspera da assinatura, Lula se reuniu no Rio de Janeiro com Ursula von der Leyen e outros representantes europeus. No encontro, as autoridades celebraram a criação de uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, destacando o fortalecimento do multilateralismo.
Ursula von der Leyen defende integração econômica
Durante seu discurso, a presidente da Comissão Europeia afirmou que o acordo comercial representa uma mensagem clara em defesa da cooperação internacional. Sem citar diretamente políticas protecionistas adotadas por outros países nos últimos anos, Ursula destacou que a parceria prioriza o comércio justo e benefícios concretos para cidadãos e empresas.
Segundo ela, a iniciativa cria um mercado que corresponde a cerca de 20% do PIB global, reforçando a integração entre Europa e América do Sul em um cenário internacional marcado por incertezas.
Próximas etapas do acordo comercial
Apesar da assinatura política, o acordo comercial ainda precisa cumprir uma série de etapas legais antes de entrar em vigor.
O texto passará por uma revisão jurídica detalhada, além de ser traduzido para todas as línguas oficiais dos países envolvidos. Esse processo deve levar pelo menos um ano até que o tratado produza efeitos práticos.
Na União Europeia, o acordo dependerá da aprovação do Parlamento Europeu. Para avançar, será necessária maioria simples entre os 720 eurodeputados. Há, no entanto, resistência de parte dos parlamentares, especialmente sob pressão de setores agrícolas.
Especialistas em direito internacional apontam que o Parlamento tem poder para rejeitar, modificar ou atrasar a ratificação do tratado, mesmo após a assinatura formal.
No bloco sul-americano, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai também precisarão ratificar o acordo comercial em seus respectivos Poderes Legislativo e Executivo. A expectativa é de que esse processo ocorra de forma mais célere, diante do consenso político sobre a relevância do tratado.
Reações ao acordo
O acordo comercial gerou reações distintas entre setores econômicos. Entidades da indústria de transformação no Brasil alertam para possíveis impactos negativos na competitividade. Representantes do setor afirmam que, para aproveitar oportunidades, o país precisará enfrentar desafios estruturais como carga tributária elevada, juros altos e ambiente de negócios desfavorável.
Na Europa, produtores rurais, especialmente na França, manifestaram oposição ao acordo comercial. Protestos recentes em Paris reuniram centenas de tratores e simbolizaram o temor de prejuízos diante da concorrência de produtos sul-americanos.
Para reduzir resistências internas, a Comissão Europeia anunciou salvaguardas adicionais. Entre elas estão o reforço nos controles de importação, especialmente relacionados a resíduos de pesticidas, a criação de um fundo de crise e a promessa de ajustes nas tarifas de importação de fertilizantes.

