Os Correios ocupam a primeira posição no ranking nacional de ações trabalhistas, segundo levantamento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Nos últimos 12 meses, foram registrados 56.481 novos processos, o que equivale a cerca de 154 ações por dia — ou seis por hora. O número impressiona, já que representa aproximadamente 70% do quadro atual de funcionários da estatal, que conta com 83 mil empregados em todo o país.
Em nota oficial, os Correios afirmaram ter realizado um mapeamento detalhado dos seus passivos e despesas judiciais, com o objetivo de conter o avanço das ações. Especialistas em direito trabalhista apontam que o alto volume de processos está ligado a falhas estruturais na gestão de pessoal, saúde ocupacional e ao descumprimento de acordos coletivos firmados com os sindicatos da categoria.
Ações trabalhistas acumuladas há décadas
Atualmente, a empresa acumula 75.173 processos trabalhistas pendentes, alguns com mais de 30 anos de tramitação. Somente em 2024, a estatal desembolsou R$ 1,1 bilhão em indenizações, e no primeiro semestre de 2025, o valor já subiu para R$ 1,5 bilhão.
O impacto financeiro é expressivo e tem refletido diretamente nas contas da empresa, que enfrenta 12 trimestres consecutivos de prejuízos — iniciados com R$ 121 milhões em 2022 e chegando a R$ 2,6 bilhões no segundo trimestre de 2025. No total, as perdas acumuladas ultrapassam R$ 8,3 bilhões.
Para manter suas operações, os Correios solicitaram ao Tesouro Nacional autorização para um empréstimo de R$ 20 bilhões, medida que busca aliviar o caixa e garantir a continuidade dos serviços.
Distribuição regional das ações trabalhistas
Nos tribunais regionais do trabalho, os Correios também aparecem na liderança. O TRT da 15ª Região (Campinas) concentra 7.938 ações, seguido pela Bahia (3.901), Distrito Federal e Tocantins (3.475), Pernambuco (2.557) e Piauí (858). No Rio de Janeiro, a estatal ocupa o segundo lugar, atrás apenas da Petrobras, com 7.443 processos.
Especialistas apontam causas e consequências
A advogada Marina Tambelli, que atua em casos contra os Correios desde 1977, avalia que o grande número de ações trabalhistas está relacionado à falta de investimentos em segurança e saúde do trabalhador, situação agravada durante a pandemia. Segundo ela, a maioria dos processos envolve doenças ocupacionais, como lesões na coluna, joelhos e tornozelos.
Por outro lado, o advogado Muriel Carvalho, integrante do corpo jurídico da estatal, destaca que muitos processos são resultado de acordos coletivos mal redigidos e cortes unilaterais de benefícios. Para ele, “quando a empresa adota medidas sem diálogo com os empregados, é natural que haja uma enxurrada de ações”.
Sobrecarga e reestruturação interna
Com um corpo jurídico formado por cerca de 260 advogados, a estatal enfrenta sobrecarga de trabalho. Apenas no TRT da 15ª Região, 18 profissionais da empresa são responsáveis por aproximadamente 14 mil processos, o que equivale a 900 ações por advogado.
Em resposta, os Correios afirmaram que estão promovendo ajustes normativos, além da implementação de um novo Plano de Cargos e Salários e de um plano de reestruturação financeira voltado à redução de despesas e recuperação da liquidez. A empresa negou ter recebido qualquer auxílio direto do governo federal para quitar dívidas trabalhistas.
Impactos e possíveis reflexos de privatização
De acordo com a professora Olívia Pasqualeto, da Fundação Getulio Vargas (FGV), condenações trabalhistas representam impacto financeiro direto nas contas da empresa. “Quando há decisão judicial, a única alternativa é o pagamento”, explicou. Ela também ressaltou que, em um eventual processo de privatização dos Correios, todo o passivo trabalhista seria automaticamente transferido à companhia compradora, conforme prevê a legislação vigente.
A liderança dos Correios no ranking de ações trabalhistas expõe desafios históricos da estatal na gestão de pessoal e na prevenção de conflitos trabalhistas.
Com prejuízos acumulados, processos antigos e uma estrutura jurídica sobrecarregada, a empresa busca caminhos para equilibrar suas finanças e reduzir o volume de litígios, enquanto tenta preservar sua operação e preparar-se para um futuro incerto, que pode incluir mudanças profundas em sua estrutura administrativa e financeira.

