*Sêmia Mauad/ Opinião MT
Apontada pelas forças de segurança como uma das principais lideranças de uma facção criminosa com forte atuação na região Norte de Mato Grosso, Angélica Saraiva de Sá, Angeliquinha, desembarcou em Cuiabá na última terça-feira, dia 20 de outubro. O recambiamento para a Capital encerra uma ostensiva operação de inteligência que envolveu autoridades policiais brasileiras e bolivianas.
Imagens divulgadas pela Polícia Civil de Mato Grosso registraram todo o processo de transferência e a chegada de Angeliquinha à sede da Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO). Durante o procedimento e os questionamentos policiais, a detida permaneceu em silêncio.
A entrada de Angeliquinha na Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá, foi formalmente autorizada pela Secretaria de Estado de Justiça (Sejus). A criminosa já foi entregue à administração penitenciária e cumpre isolamento na unidade prisional da Capital de onde havia conseguido fugir há pouco mais de um ano.
CAPTURA EM SANTA CRUZ DE LA SIERRA APÓS UM ANO DE FUGA
Angeliquinha estava foragida desde o dia 17 de agosto de 2025, quando conseguiu escapar da própria Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May. A prisão ocorreu em 22 de setembro de 2026, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, onde se escondia com o auxílio de conexões do crime organizado internacional. A foragida acumulava seis mandados de prisão em aberto, todos expedidos ao longo do ano de 2026.
A captura foi fruto de uma ação integrada entre as forças de segurança de Mato Grosso, representada pela GCCO, pela Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco) e pela Gerência Estadual de Polinter (Gepol), e autoridades policiais do país vizinho. Após a prisão em solo boliviano, os trâmites diplomáticos e legais foram agilizados para viabilizar a devolução imediata a Mato Grosso.
Considerada um dos alvos mais procurados do Estado, Angeliquinha possui um extenso histórico criminal. Somadas todas as condenações judiciais por crimes como homicídios qualificados, tráfico de drogas e organização criminosa, as penas impostas à liderança ultrapassam 260 anos de reclusão. Somente em março de 2025, a Justiça proferiu uma sentença que impôs à ré 99 anos e 11 meses de prisão.
Entre os crimes de maior repercussão atribuídos à ordem direta está a execução brutal de quatro trabalhadores em Nova Monte Verde, registrada em agosto de 2022. As vítimas haviam saído do Estado do Paraná para atuar em obras de pavimentação asfáltica na região.
No entanto, o grupo foi sequestrado pela facção sob a falsa suspeita de pertencer a uma organização rival. Os trabalhadores foram torturados e executados, tendo seus corpos desovados na zona rural do município. As investigações da Polícia Civil comprovaram que a ordem para a chacina partiu diretamente de Angeliquinha.
OPERAÇÃO SHOWDOWN: LAVAGEM DE R$ 20 MILHÕES E GARIMPO ILEGAL
A atuação da faccionada não se restringia ao comando de homicídios e ao tráfico de entorpecentes no Norte do estado, especialmente em Alta Floresta. Em março de 2025, a Polícia Civil deflagrou a Operação Showdown, voltada ao desmantelamento do braço financeiro e familiar que sustentava as atividades ilícitas da criminosa.
As apurações demonstraram que o núcleo familiar de Angeliquinha, composto por seu pai, filha e genro, geria um estruturado esquema de lavagem de capitais. O grupo movimentou mais de R$ 20 milhões em um período de apenas um ano e sete meses, quantia completamente incompatível com os rendimentos declarados pelos suspeitos.
Para ocultar a origem ilícita dos recursos, o grupo mantinha empresas de fachada nos setores de calçados, estética e vestuário, além de operar plataformas de jogos de azar online. As investigações da Polícia Civil também comprovaram a participação direta da estrutura criminosa na exploração de garimpos ilegais nos municípios de Alta Floresta e Nova Bandeirantes, além de práticas sistemáticas de extorsão e tráfico interestadual de drogas.
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